
A microempresária Maria Helena Roberto da Silva, 57 anos, foi uma das centenas de mulheres que vieram do Nordeste para trabalhar no garimpo da Serra do Tepequém, ao Norte de Roraima, no Município do Amajari. Mas ela foi uma das poucas que decidiu se estabelecer na localidade como empreendedora, na Vila do Paiva, atual sede da comunidade. Atualmente, na companhia do marido, ela é proprietária de um mercantil na avenida principal da Vila do Paiva.
Natural do Maranhão, ela chegou a Tepequém em abril em 1993 para cozinhar para um dos donos de maquinário na Vila do Cabo Sobral, antiga sede da localidade e onde ficavam as principais frentes de exploração de diamante. Embora ela mesmo não tenha exata noção de sua importância para a transição do garimpo para o turismo, foi pioneira na recepção de turistas em sua casa.
Quando a exploração mineral com uso de maquinário foi proibida, depois da década de 1990, Dona Helena abriu um pequeno restaurante com estrutura rústica para atender à comunidade e ao pequeno movimento da exploração de diamantes de forma manual que resistia, já que a utilização de maquinários foi proibida. Galinhas que ela criava no quintal de casa eram o prato principal oferecido.
Com o garimpo proibido, os primeiros turistas, que na verdade eram aventureiros em busca dos desafios e belezas da serra, começavam a chegar. Para se ter noção do tamanho da dificuldade, chegar a Tepequém já era uma grande aventura, pois nem estrada asfaltada existia. Os visitantes não eram apenas de Boa Vista, mas também de outros estados, como Manaus (AM), e ainda do exterior, especialmente da Europa.
Quando começou a vender comida e receber visitantes, Dona Helena instalou um painel com fotos do tempo do garimpo, que acabaram se tornando atração dos primeiros grupos de visitantes, entre eles estudantes que chegavam em excursão para se divertir ou mesmo realizar trabalhos de campo.
A casa dela não servia apenas como restaurante, mas também como ponto de acolhida e área para barracas de camping, a primeira que surgiu devido à procura pelos visitantes que chegavam para conhecer as cachoeiras do Paiva, Cabo Sobral e Barata, as de fácil acesso e que ficam a menos de 3km da Vila do Paiva.

Como recordação daquela época, ela ainda guarda cadernos nos quais o visitante podia deixar sua assinava como lembrança ou escrever mensagens de agradecimentos ou mesmo de incentivo para que ela continuasse a investir no turismo.
Eram cadernos que serviam como os antigos relicários, nos quais se podia escrever mensagens, declarações de amizades, colar fotos e fazer desenhos, quando nem se pensava em internet, cuja utilidade lembra muito as redes sociais de atualmente.
Hoje Dona Helena é casada com o também maranhense José Galdino Moura, 57, ex-garimpeiro que também decidiu ficar, que foi servidor público municipal e o primeiro presidente da Associação dos Moradores do Tepequém, quando a entidade foi criada após o fim da Era do garimpo de diamante, quando os moradores tiveram que se preparar para buscar nova alternativa de vida.
A partir do embrião que representou o restaurante e o quintal que servia para acampar, o casal seguiu outro ramo de atividade e se tornou proprietário de um comércio que atende não só os turistas, mas toda a comunidade, com venda de vários produtos para atender as necessidades dos moradores locais, que antes precisavam ir para Boa Vista fazer compras.
Ida ao avião que caiu no auge do garimpo, quando turismo nem existia em Tepequem

Quando ninguém pensava em turismo de aventura por lá, como uma atividade organizada, Dona Helena e o marido subiram o Platô de Tepequém, em 2011, somente para acampar e conhecer o local onde está a fuselagem do avião que caiu no início da década de 1950, auge do garimpo de diamante.
Os destroços do avião já despertavam a curiosidade de quem ia conhecer Tepequém antes de o turismo se consolidar ou mesmo de seus moradores mais antigos, uma vez que a queda da pequena aeronave faz parte da história do garimpo e de lendas que povoam o imaginário dos mais antigos.
Acompanhada de um filho e um amigo garimpeiro, ela foi conhecer o local da queda. Pouco tempo depois, ir até lá se tornou um atrativo turístico, o que não agradava alguns garimpeiros que nunca desistiram de explorar minérios. Dona Helena nunca imaginava que essa aventura iria se tornar um roteiro turístico em um futuro bem próximo.
Naquela época, a presença de turistas chegou a ser rechaçada a ponto de um garimpeiro jogar, abismo abaixo, destroços maiores do avião. Hoje só restam alguns pedaços, como o de uma das asas com o trem de pouso.
