
No meio das turbulências desse agitado período pré-eleitoral, em que as forças políticas mexem suas peças no tabuleiro político roraimense, mais uma mochila recheada de dinheiro foi a apreendida pela Polícia Federal, sob fortíssimas suspeitas de uma provável fraude em processos licitatórios com a finalidade de desviar recursos públicos, conforme apontam as investigações.
Enquanto os olhos estão atentos à decisão do prefeito Arthur Henrique, que deverá renunciar para concorrer às eleições desse ano, e à movimentação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que poderá confirmar a cassação do então governador Antonio Denarium, outro fato não menos importante acontecia: o mandado de prisão expedido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) contra o ex-conselheiro do Tribunal de Contas de Roraima (TCE-RR), Henrique Manoel Fernandes Machado.
Condenado a 11 anos de prisão em regime inicialmente fechado, Machado foi um dos 85 denunciados em 52 processos no chamado “escândalo gafanhoto”, um esquema responsável por um desvio superior a R$ 230 milhões de verbas públicas para o pagamento de 5,5 mil servidores fantasmas. Por meio da Operação Praga do Egito, em 26 de novembro de 2003, a PF prendeu 42 pessoas em um único dia no maior esquema de corrupção já registrado pela Justiça de Roraima.
O escândalo ocorreu durante a gestão do então governador Neudo Campos, no período de 1995 a 2002 (inclusive ele foi preso), que envolveu o governador, secretários estaduais, deputados estaduais e federais, além de dois conselheiros do TCE. Mais de 23 anos depois, esse emblemático caso ainda repercute, porém os fatos indicam que os políticos não aprenderam a lição, dando continuidade a comportamentos ilícitos de agentes públicos que, vez por outra, são pegos com mochilas cheias de dinheiro e que exibem explícitos sinais de enriquecimento ilícito.
Não há pudores nem limites, com os reflexos da corrupção sistêmica atingindo em cheio a política roraimense, cujo desenrolar da disputa eleitoral de 2026 está condicionada a uma decisão do TSE, que analisa as cassações do então governador Denarium por abuso de poder político e econômico. Cassado quatro vezes pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), ele renunciou para que possa concorrer ao Senado.
Outro reflexo direito dos efeitos da corrupção é a situação da Universidade Estadual de Roraima (UERR). Enquanto mochila com dinheiro era apreendida e o ex-conselheiro do TCE preso, professores e outros servidores da UERR protestavam contra o desmanche da UERR, atingida em cheio pela corrupção que campeia no Estado, cujo esquema pode ter desviado mais de R$ 108 milhões, conforme apontam as investigações da PF que deflagou a Operação Meritum em outubro de 2025.
Um dos principais investigados é o ex-reitor da UERR, Regys Odlare, que mesmo sob graves acusações sobre desvio de recursos, ainda assim foi nomeado para o cargo de Controlador-Geral do Estado, como se nada de grave tivesse acontecido. Exonerado somente após ter sido preso pela PF, o ex-reitor acabou assumindo um cargo no TCE, no início do ano.
Por sua vez, o TCE voltou a ser lembrado no caso da prisão do ex-conselheiro Henrique Machado, cuja família tem forte influência política no Município de Alto Alegre, onde o filho dele, Pedro Henrique Machado (PSD), era o prefeito quando foi preso pela PF em 2023 por suspeita de participação em um esquema de corrupção e desvio de recursos, o qual foi posteriormente cassado.
Há outros entrelaçamentos desses graves episódios de suspeitíssimos casos de corrupção, com outras prisões dentro do “escândalo dos gafanhotos”, mas não há espaço para que tudo seja detalhado. No entanto, o que é necessário observar nesse intricado enredo é a existência de uma corrupção institucionalizada, que atinge os pilares da política e prejudica setores importantes, como é o caso da Educação, em que a UERR afunda em um sucateamento planejado.
*Por Jessé Souza
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