
Sem tempo para tomar decisões de impacto nesses poucos meses de governo que lhe restam e com pensamento focado na campanha eleitoral visando uma reeleição, o novo governador Edilson Damião optou por um discurso que, se não é algo planejado, ao menos revela os problemas deixados pelo governo Antonio Denarium, do qual o próprio Damião fez parte como vice-governador e administrando a parte que lhe foi destinada como secretário de Infraestrutura (Seinf), cargo que ele acumulava na gestão.
Com obras paradas ou caminhando a passos lentos em várias regiões do Estado, com prazos de conclusão vencidos, não há outra decisão senão dar continuidade ao que ele não conseguiu realizar ou terminar. No setor de Infraestrutura, será o que ele classificou como “continuidade dos investimentos em obras estruturantes”, que é um discurso genérico para não comprometer o setor que ele vem administrando desde o primeiro governo Denarium.
No que diz respeito ao funcionalismo público, mesmo sabendo que iria assumir o governo com a programada renúncia de Denarium, Edilson Damião manteve-se ausente do diálogo com os servidores estaduais, em que os professores e policiais civis e militares mantém a linha de frente das reivindicações e descontentamento, inclusive com rumores de possíveis paralisações.
Os professores, por exemplo, já saíram do gabinete sindical e começou a mobilizar a categoria. E esse é o grande desafio no setor da Educação, em que Damião destaca como “eixo central da gestão”, inclusive anunciando a contratação de consultoria especializada para diagnóstico e melhoria da rede pública. Mas ele já deu a dica: quer importar a realidade do Ceará, como já fizeram outros, para ser adaptada à realidade de Roraima.
Talvez apenas um discurso para mostrar que estaria conectado com bons exemplos de outro Estado. Porém, não falou em chamar os educadores para discutir uma Educação de qualidade, ignorou ou mostra que desconhece que Roraima tem a peculiaridade de ter uma educação indígena com desafios e, como a pessoa responsável por obras no Estado desde a primeira gestão, o governo Damião como secretário e vice não construiu uma única escola nova, o que é um péssimo indicativo para o setor educacional. Não pode ser esquecido o caso de corrupção na Universidade Estadual de Roraima (UERR).
Da mesma forma ele que falou sobre a Segurança Pública, sem apontar intenção de chamar as categorias para conversar, as quais não escondem seus descontamentos com a forma de conduzir administrativa e politicamente as polícias (não apenas a política salarial) e se limitando a dizer que sua prioridade é “continuar com os investimentos e aproximar as forças de Segurança da população”.
Esse discurso é algo parecido com o que propôs o governo Neudo Campos lá atrás, que quis exportar um modelo primeiro-mundista do Canadá, instalando a polícia cidadã e a aproximando da comunidade, inclusive com Ciclo-Patrulha monitorando as escolas públicas e andando pelos bairros. Falhou miseravelmente, enquanto o crime começava a se organizar, chegando ao nível atual em que as facções dominaram o Estado.
Nesse mesmo período do crime fortalecido e organizado, já na atual administração de Damião como vice-governador, policiais militares em sua maioria foram cooptados pelo crime, com 100 policiais militares investigados (inclusive milícia, roubo de garimpeiros e segurança para empresários de garimpo) incluindo um então comandante da PM acusado de vender armas e munições, além de envolvimento de um deputado, além de outro ex-deputado investigado por ter montado uma milícia dentro Poder Legislativo.
Não menos importante, a Saúde foi outro ponto apontado por Damião e que desnuda um setor marcado por corrupção desde a primeira administração de Denarium, com a troca de ao menos 12 secretários, com as crises atravessadas por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que colheu denúncias de ingerência política e familiar por toda parte, além de gravíssimas denúncias de corrupção, com dinheiro na cueca e tudo.
O governo Denarium conseguiu controlar os barulhos vindos da Sesau, na mesma medida que contou com a benevolência da mídia que não deu muita atenção para antigos e graves problemas, como histórica fila para cirurgias, falta de material e equipamentos, sofrimento na fila do Tratamento Fora de Domicílio (TFD), além de outros. Por sua vez, o novo governador chegou prometendo lançar um “grande pacote de cirurgias eletivas” e “medidas para humanizar e melhorar o atendimento à saúde pública”.
Em resumo, pouco tempo haverá para implementar mudanças e impor uma marca administrativa para superar esses problemas deixados pelo governo anterior do qual ele fez parte. No mais, é esperar pagamento em dia do funcionalismo público e a política de distribuição de cesta básica e outros benefícios sociais, que foi a marca do governo anterior, cuja política assistencialista consta na lista das quatro cassações pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e que se encaminham para serem confirmadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
*Por Jessé Souza
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