A ‘vaquinha’ dos moradores do interior e a montanha de recursos desde 2021

Moradores da Vila Entre Rios pagaram do próprio bolso para trator raspar trecho da BR-210 (Imagem: Reprodução)

No Sul de Roraima, no Município de Caroebe, os moradores da Vila Entre-Rios se uniram para fazer uma “vaquinha” com a finalidade de pagar um trator patrol motoniveladora para ajeitar o trecho da BR-210, cujo asfalto não existe mais e se tornou uma buraqueira. Essa estrada é o eixo que interliga todos os municípios daquela região (Rorainópolis, São Luiz do Anauá, São João da Baliza e Caroebe), mas os políticos deixaram que aquela via chegasse à mais precária das situações.

“Depois de pagarmos tantos impostos, a população se vê obrigada a retirar dinheiro do próprio bolso para ajeitar a principal estrada do Município de Caroebe, tendo prefeito, deputados, senador e governador todos da mesma base, todos alinhados”, bradou um morador envolvido na ação em mensagens compartilhadas em um aplicativo de mensagens. Os moradores ainda afirmam, revoltados, que os políticos da região estariam divulgando que a recuperação da estrada estaria sendo feita pelo município.

Embora seja uma ação de desespero de parte daquela população, não se trata de um fato isolado. No fim do mês passado, pais e alunos do Município do Cantá, na região central do Estado, decidiram arregaçar as mangas para arrumar a Vicinal do Projeto de Assentamento do Taboca, que ficou intrafegável após anos de descaso das autoridades, impedindo que o transporte escolar cumprisse com o seu trabalho diário.

Na região Norte, a cena se repete até hoje, a exemplo do Município de Alto Alegre, onde os moradores da Vicinal do Paredão estão jogados à própria sorte em uma estrada tomada por atoleiros que só são vencidos na lâmina de um trator pago pelos próprios moradores. Conforme eles, a única ação do governo é jogar um barro avermelhado que se transforma em um lamaçal intransponível a qualquer chuva.

Faz todo sentido a revolta dos moradores do interior do Estado, pois anúncios de recursos não faltaram desde 2021. No dia do aniversário do Estado, em 05 de outubro de 2021, o Governo do Estado realizou uma grande solenidade no Parque Anauá para anunciar o programa “Aqui tem Obra”, com cerca de R$ 372 milhões em investimentos. Só para infraestrutura, seriam R$ 230 milhões para asfaltamento de estradas, recuperação, substituição e construção de pontes, bem como mais R$ 240 milhões que seriam investidos no interior do Estado.

No ano seguinte, mais verbas anunciadas. Sob a justificativa de “estado de calamidade pública” por causa das chuvas, em junho de 2022, faltando 100 dias para as eleições, o Governo do Estado destinou R$70 milhões para 12 municípios do interior, com autorização da Assembleia Legislativa de Roraima, amparado por decretos de calamidade pública oficializados pelos prefeitos por causa do inverno. Esse foi o total de prefeitos aliados que apoiaram a campanha de reeleição.

O montante de recursos era destinado exatamente para as prefeituras do interior enfrentarem os estragos provocados pelo inverno, a exemplo de estradas intrafegáveis por causa de atoleiros, pontes quebradas e bueiros destruídos, além de construção de desvios para garantir a trafegabilidade principalmente nas vicinais. Tudo sob os holofotes da imprensa e das fortes campanhas institucionais.

Logo em seguida, o governo anunciou quase R$105 milhões em contratos direcionados para obras e serviços nos 15 municípios do Estado, mais precisamente em 20 de junho, sem especificar nada, apenas alegando que o montante de recurso seria para limpeza urbana, abertura e conservação de ruas em vilas, remoção de entulhos, demolições de prédios, limpeza de escolas e prédios públicos na Capital e nos municípios do interior.

Como se pode constatar, recursos nunca faltaram desde 2021, o que significa que jamais a situação das estradas e pontes poderiam ter chegado a atual nível de os moradores serem obrigados a tirar do próprio bolso para fazer reparos em rodovias e vicinais. Tem algo cheirando muito mal e isso precisa ser passado a limpo, especialmente porque ano que vem já teremos eleições de novo.

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