Vila do Cabo Sobral, berço da história de Tepequém e suas corredeiras

Até o encerramento do garimpo pelo Governo Federal, no fim da década de 1990, a Vila Cabo Sobral foi a sede da Serra do Tepequém, onde estão fragmentos da história e famílias remanescentes do auge do diamante desde o fim da década de 1930 e início de 1940

Vila do Cabo Sobral em 1953: tudo começou neste local, onde uma grande cidade garimpeira floresceu em cima da serra, onde nem estrada havia

A Vila do Cabo Sobral, localizada acima da atual sede do vilarejo, conhecida por suas corredeiras de fácil acesso aos turistas, foi o grande berço da exploração de diamante na Serra do Tepequém, que se tornou o mais importante garimpo da América Latina nas décadas de 1940 a 1960. Até o fim do garimpo, no final da década de 1990, foi a sede de Tepequém.

A vila reúne os mais importantes pontos históricos e ainda abriga famílias remanescentes do garimpo. É lá onde estão as Ruínas da vila (corrutela na linguagem dos garimpeiros), onde estavam concentrados os bares, o prostíbulo, o comércio, a delegacia e os barracões cobertos de palha que serviam de ponto de apoio e abrigo dos garimpeiros.

Carcaças dos poucos carros que conseguiam chegar no garimpo, em cima da serra

É de lá que os garimpeiros partiam para os baixões, áreas onde o minério era explorado. Naquele lugar estão restos de bombas de garimpo, carcaças de aviões e de carros Willys e Jeeps, os únicos que conseguiam subir a serra quando não havia estrada.

Ainda é possível ver a grande árvore, que era usada como alvo por garimpeiros “bamburrados” (cheios de diamantes) que davam tiros de espingardas cujas munições eram diamantes pequenos (xibiu) ou mesmo pepitas de ouro que não tinham qualquer valor à época.

Nesta foto de 1960 dá para perceber que a Vila do Cabo Sobral abrigava até 5 mil pessoas

Cabo Sobral chegou a abrigar até 5 mil moradores entre as décadas de 1940 e 1960, auge da exploração manual de diamantes, inclusive a localidade dispunha de um cinema, o primeiro na História de Roraima, e de uma pista de pouso, que existe até hoje na Vila do Paiva, outro traço de modernidade ainda inexistente em Boa Vista, naquele tempo.

Corredeiras do Cabo Sobral, que hoje servem ao turismo, resistiram à destruição do garimpo

Família guarda memórias do auge do 

garimpo às margens do Cabo Sobral

Pedro Cordeiro da Silva e a esposa Carmem Almeida Modesto: história e lembranças do garimpo

Um dos moradores mais antigos da Vila do Cabo Sobral é Pedro Cordeiro da Silva, 69 anos, filho de um dos garimpeiros tradicionais que chegou a Tepequém em 1947, Joaquim Cordeiro da Silva, vindo do Ceará.

 Há 39 anos casado com Carmem Almeida Modesto, 54 anos, o ex-garimpeiro  vive com a família de quatro filhos a poucos metros das corredeiras do Igarapé do Cabo Sobral, há 29 anos, um dos pontos de grande visitação de turistas. O casal guarda com saudosismo uma foto antiga da vila, imagem congelada do auge do garimpo.

Os dois também são guardiães de fragmentos da História do local, reunindo músicas que tocavam nos bares e clube da época, relatos de garimpeiros registrado em um documento que nunca foi publicado e muitos “causos” vividos na Vila do Cabo Sobral, que é um museu a céu aberto.

Garimpo no ano de 1978, na área conhecida como mina nova, no Cabo Sobral (Foto: IBGE)

Fases do garimpo de diamante

A exploração de diamantes experimentou algumas fases até chegar ao turismo. A primeira delas foi a chegada dos primeiros garimpeiros em 1937. A partir daí, começou a corrida pelo diamante, cujo apogeu da exploração manual foi entre as décadas de 1940 a 1950. Na década de 1960 viver do diamante começou a decair.

Depois desse auge e o início da decadência da exploração manual, em 1970 começaram a chegar os primeiros maquinários, dando início a uma nova fase da busca pelas pedras preciosas. A prospecção com máquinas seguiu até o fim da década de 1990, quando o garimpo com máquinas foi proibido definitivamente. Mas até hoje é permitido que antigos garimpeiros trabalham de forma artesenal.

No início da década de 2000, com a decadência completa do garimpo, foi dado início ao turismo como atividade econômica alternativa para garantir a sobrevivência de quem morava em Tepequém e dependia exclusivamente da exploração de diamantes.

Publicado originalmente no blog SERRA DO TEPEQUÉM (serradotepequemrr.blogspot.com) em 2020

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