
Se o Brasil teve a Semana de Arte Moderna, em 1922, um marco que oficialmente tornou a arte moderna uma realidade cultural no país, Roraima teve o Movimento Cultural Roraimeira, criado em 1984, quando ainda era Território Federal, que despertou e uniu não somente músicos, mas também poetas, dançarinos, artistas plásticos, fotógrafos e outras expressões artísticas e apaixonados por essa terra, buscando marcar e enaltecer a cultura fortemente regionalista como “a” identidade de Roraima.
Neste 28 de agosto, o Roraimeira completou 40 anos, feito este que será celebrado em grande estilo no dia 8 de setembro, um domingo, com um show no Teatro Municipal de Boa Vista, na sala que leva o nome do trio, encerrando a programação do Festival Mormaço Cultural. Será um momento único para reafirmar a importância desse movimento cultural com forte influência de expressões, costumes e tradições indígenas, sempre preocupado em enaltecer as belezas e paisagens de Roraima, favorecendo as potencialidades turísticas e colocando Boa Vista, a Capital, como o “meio do mundo”.
Mas o Movimento Cultural Roraimeira (formado pelo trio Neuber Uchoa, Eliakin Rufino e Zeca Preto) vai muito mais além, expressando a pluralidade cultural que já fervilhava na década de 1980, a partir da forte migração nordestina ocasionada pelo garimpo e vinda de imigrantes dos países vizinhos (Venezuela e Guiana), realidade esta ampliada atualmente pela diáspora venezuelana e a chegada de pessoas de vários estados. E o trio já cantava o futuro, com influências caribenhas que podem ser traduzidas pela música “Makunaimeira”.
Antes do Roraimeira, a cultura indígena estava sendo devorada pela miscigenação cultural, com os próprios indígenas envergonhados de assumir sua identidade e os não indígenas e miscigenados não menos arredios a se identificarem com a cultura local, impregnado de regionalismo e da própria cultura indígena presente na culinária, nas expressões linguísticas, na arte, no modo de vida. E as músicas do trio deram sentido de pertencimento, orgulho e amor a esta terra movida por um caldeirão cultural que não pode desprezar não só a cultura, mas as raízes indígenas que deram sentido a tudo.
Então, os envergonhados levantaram a cabeça, os excluídos perceberam que havia outros iguais na diferença, com o gentílico Macuxi sendo motivo de orgulho, e não mais como expressão de chacota, preconceito e racismo. E surgiram os “roraimados”, aqueles que não nasceram aqui, mas que sentem orgulho de dizer que foram adotados como novos roraimenses de coração.
Mesmo o Roraimeira tendo se separado na década de 2000, com cada um seguindo com suas produções individuais, o movimento cultural seguiu. Com Neuber Uchoa levando o Parixara para ser cantado e dançado por alunos de escolas públicas e particulares na hora do recreio. Com Eliakin Rufino declamando suas poesias como se fosse cavalo selvagem sem cabresto, sela nem freio nos beiços. Com Zeca Preto reencontrando e reencantando Roraima na América do Sul.
É um orgulho dizer que o Roraimeira é nosso, que somos todos nós e todos aqueles que chegam para somar e dividir suas vivências e amor por esta Terra de Makunaima. O mínimo que poderíamos fazer em agradecimento é tornar o Movimento Cultural Roraimeira como Patrimônio Cultural Imaterial de Roraima. Suas músicas nos encheram de significados a ponto de termos uma identidade cultural que pode ser cantada, declamada, pintada, desenhada, escrita e murmurada em cada alma destes imensos lavrados, serras, rios, lagos e céus únicos no extremo Norte do Brasil.
*Por Jessé Souza (esseroraima@hotmail.com)
