
Passou da hora de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) finalmente julgar o processo de cassação do governador Antonio Denarium (PP), já cassado três vezes por corrupção eleitoral. Um dos processos foi retirado de pauta duas vezes e não há mais motivo para o TSE protelar o julgamento. Momento é propício, diante dos sérios e graves indícios de que este governo se tornou um antro do crime organizado, conforme apontam as investigações, o que foi corroborado pelas operações da Polícia Federal desta quarta-feira, que colocam o comandante-geral da Polícia Militar, Miramilton Goiano, como chefe de um grande esquema.
NO COLO DE DENARIUM
As duas operações realizadas nesta quarta-feira, 23, pela Polícia Federal em Roraima e São Paulo, visando desarticular um esquema de venda ilegal de armas de fogo e munições, deixaram bem claro no que se tornou o governo Denarium, cujo principal projeto político foi fortalecer seus amigos do agronegócio e transformar Roraima em um Estado dominado pelo narcogarimpo. A bomba estourou no colo de Denarium e não foi nenhuma surpresa. Vejamos.
CHEFE DO ESQUEMA
Homem de máxima confiança do governador Denarium, o comandante-geral da Polícia Militar de Roraima, coronel Miramilton Goiano, é investigado como suspeito de ser o chefe de um esquema criminoso. Junto com seus dois filhos, o coronel é suspeito de vender armas e munições para policiais penais, entre eles o deputado estadual Rárison Barbosa, que por sua vez revendiam para garimpeiros ilegais da Terra Indígena Yanomami.
O GRANDE PROJETO
Embora o coronel Miramilton seja citado em duas investigações da Polícia Federal e Polícia Civil por envolvimento com formação de milícias que não só protegia empresários de garimpo como também assaltava garimpeiros, o governador Antonio Denarium o manteve no comando da PM não apenas por confiar nele, mas também para manter o grande projeto que descambou para o narcogarimpo, conforme se verá a seguir.
INÍCIO DO PLANO
Como se sabe, Denarium fez de tudo para favorecer o garimpo ao encabeçar um movimento para aprovar uma lei na Assembleia Legislativa de Roraima, que ele sancionou em seguida, legalizando o garimpo no entorno das terras indígenas e outra lei impedindo policiais e agentes estaduais de apreenderem equipamentos de garimpeiros. Ele já havia reduzido o ICMS do combustível para aeronaves, facilitando a vida dos donos de aviões que faziam voos clandestinos para o garimpo ilegal.
SUBSTITUIÇÃO NA PM

O grande esquema de dar verniz de legalidade ao garimpo ilegal foi brecado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que declarou as duas leis inconstitucionais. No entanto, a estratégia seguiu com a substituição do comando da PM, quando o coronel Miramilton foi designado para o cargo, em fevereiro de 2023, não só fazendo vistas grossas ao garimpo ilegal, como passando a dar apoio às atividades criminosas. Informalmente, ele já tinha poderes sobre a Corporação quando era chefe da Casa Militar, cargo que ele ocupava desde março de 2022. Antes disso, ele era subcomandante da PM.
SURGE A MILÍCIA
A partir de Miramilton no comando da PM, alguns policiais militares começaram a agir em atividades ilícitas, o que começou a vir à tona quando um assalto frustrado de uma aeronave na zona rural de Boa Vista, em setembro de 2022, deixou evidências claras de participação de oficiais da PM em milícias. Inclusive um PM morreu na ação criminosa. A partir dali, uma investigação da Polícia Civil apontou que um grupo de PMs cometia diversos crimes e atuava como milícia e oferecia serviço de vigilância privada para garimpeiros.
AÇÕES CRIMINOSAS
Inicialmente, os PMs agiam para intimidar garimpeiros de ouro e cassiterita na Terra Indígena Yanomami, mas passaram a praticar extorsão e roubo de toneladas de minérios para ficar com o lucro, além de vender proteção e armamentos aos garimpeiros. As investigações apontaram 40 policiais militares envolvidos em diversos atos ilícitos, como roubos, extorsões, torturas e execuções de garimpeiros.
LIBERANDO POLICIAIS
Testemunhas ouvidas durante o inquérito apontaram que o comandante da PM, Miramilton Goiano, não só sabia como também participava ativamente do esquema, sendo o cabeça do fornecimento de munições, armas e coletes a prova de bala, bem como liberava policiais militares que estavam de serviço para que trabalhassem na segurança privada. E esse foi o principal alvo das operações desta quarta-feira.
PROTEÇÃO A TESTEMUNHAS
Com todo esse apoio, a milícia se organizou e passou a realizar assaltos, extorsões, torturas e execuções de garimpeiros, bem como oferecia serviços de segurança, escolta e munições a outros grupos de garimpeiros ilegais. As acusações foram tão bombásticas que os depoentes entraram para o serviço de proteção a testemunhas. Ainda existem evidências de que os integrantes do grupo também atuariam no transporte de cocaína na fronteira com Venezuela e Colômbia por meio de aeronaves. É o narcogarimpo.
ARMAS E DROGA
Investigações apontaram que o garimpo na região de Pupunha, na Terra Yanomami, era um dos locais que recebia serviços de segurança prestados por PMs. O dono dessa área ilegal teria ligações com uma facção criminosa e, uma vez por semana, um helicóptero pousava com carregamento de drogas. Além da segurança privada, o local seria abastecido com armas e munições de calibre pesado pelos PMs.
MAIS ENVOLVIMENTO
O envolvimento do comandante da PM, Miramilton Goiano, em supostos crimes não pararam por aí. Em outra investigação da Polícia Federal sobre uma facção criminosa com atuação dentro da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, apareceu o nome do coronel Miramilton e do filho dele, o agente penitenciário Renie Pugsley de Souza. Eles passaram a ser suspeito justamente de vender armas e munições aos criminosos, o que mostra novamente conexão com o alvo das operações da PF desta quarta-feira.
VISITAS NA PAMC
Miramilton e o filho fizeram três visitas consideradas irregulares ao detento Jonathan Novaes de Almeida, preso na Operação K’daai Maqsin, em 2019, que investigou uma organização criminoso responsável por vender armas e munições ilegalmente para garimpos e facções criminosas. O detalhe importante é que o preso Jonathan trabalhou numa empresa de vigilância que era administrada pelo coronel Miramilton. Ou seja, indícios fortes não faltam.
CASOS EM FAMÍLIA

O esquema era tão pesado que familiares do governador Denarium acabaram se envolvendo nos crimes. A irmã do governador, Vanda Garcia de Almeida, foi alvo de uma operação da Polícia Federal no dia 10 de fevereiro do ano passado. Ela é investigada por suspeita de integrar uma quadrilha acusada de lavar dinheiro do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami e que atraiu o crime organizado na exploração ilegal de minério, além do tráfico de droga e de armas.
SOBRINHOS NO TRÁFICO

No dia 23 de abril deste ano, foi a vez de dois sobrinhos do governador, Fabrício de Souza Almeida, 38 anos, e Antonio Olivério Garcia Bispo, 20 anos, serem presos pela Polícia Civil com 145 kg de skunk, um fuzil, um revólver e milhares de munições, mostrando pela primeira vez fortes indícios de uma ação organizada do narcogarimpo em Roraima, tema que era tratado com um exagero por parte de quem alertava para a contaminação da estrutura governamental.
ASSASSINATO E FUTEVÔLEI
O comandante da PM, coronel Miramilton, ainda é investigado no caso da morte de um casal no Cantá, em 23 de abril deste ano, executado a tiros em uma disputa por terra com a participação do capitão capitão da PM Helton John da Silva de Souza, que à época era o responsável pela segurança do governador Denarium. O coronel é suspeito de ter interferido no caso. O detalhe é que Helton congrega na mesma igreja evangélica em que o coronel Miramilton é pastor. Havia muita certeza da impunidade. O bizarro nesse caso é que, depois do crime, o capitão foi jogar futevôlei no complexo Ayrton Senna com os amigos. Tudo em nome de Deus, Pátria e Família.

