A coluna EM PAUTA trata da prisão de outro filho do casal de ex-governadores Neudo e Suely Campos como exemplo do poderio que cerca o garimpo ilegal em Roraima, crime que se soma à corrupção. Mas não é só essa família de políticos. A irmã do governador Denarium, quatro vezes cassado por corrupção eleitoral, também já foi presa por envolvimento com o garimpo ilegal, bem como dois sobrinhos dele presos por tráfico de droga
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Não é a primeira vez que um filho do casal de ex-governadores Neudo e Suely Campos é preso sob suspeita de envolvimento com o garimpo ilegal. No primeiro caso, em abril de 2023, o preso foi Guilherme Campos após ser flagrado sobrevoando a Terra Indígena Yanomami, cujo espaço aéreo estava sendo monitorado pela Força Aérea Brasileira. Á época, ele se safou alegando que estava indo para a fazenda da família vacinar o gado.
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Na sexta-feira passada, 25, outro filho do casal foi preso. Desta vez, Eduardo Campos foi flagrado pela Polícia Federal com cinco garimpeiros suspeitos de envolvimento com o garimpo ilegal, após o avião em que estavam ter sido interceptado e pousar na pista clandestina de uma fazenda no Município do Cantá. Durante a operação foram apreendidos ouro, veículos, celulares e outros equipamentos eletrônicos. A aeronave foi destruída.
SEM DESCULPA

Nesse segundo caso, não tem mais como inventar desculpas. O filho dos ex-governadores foi direto para a prisão junto com os garimpeiros, pois a PF verificou ausência de plano de voo e constatou que a aeronave apresentava modificações internas com a finalidade de transportar carga, inclusive estava abarrotada de suprimentos típicos de garimpo ilegal, como alimentos, cigarros, vasilhames de combustível e pepitas de ouro.
GARIMPO E CORRUPÇÃO
Há outros detalhes que não podem ser esquecidos. Preso sob suspeita de garimpo ilegal na sexta-feira, Eduardo Campos também é político, pois em 2014 foi candidato a deputado federal terceiro mais votado, com 16.942 votos, e só não se elegeu por falta de coeficiente eleitoral. Por sua vez, Guilherme Campos também já foi preso em dezembro de 2018 durante operação da PF contra desvio de recursos públicos no sistema prisional de Roraima, junto com outras 11 pessoas, esquema que movimentou R$ 70 milhões em três anos do governo de sua mãe.
INTERVENÇÃO

A prisão de Guilherme Campos ocorreu no último ano de sua mãe, Suely Campos, como governadora de Roraima, a qual saiu após intervenção federal decretada no dia 20 de dezembro de 2018, diante da grave crise na Segurança Pública e Sistema Prisional, com servidores com salário atrasado, incluindo policiais e agentes penitenciários, que entraram em greve. Não pode ser esquecido que o pai, o ex-governador Neudo Campos, cumpriu pena de prisão como chefe do maior esquema de corrupção de Roraima, o “Escândalo dos Gafanhotos”, que desviou cerca de R$230 milhões há 22 anos.
INTERVENTOR CASSADO

Com a saída de Suely Campos, quem assumiu o Estado como interventor foi o então governador eleito em outubro daquele ano de 2018, Antonio Denarium, o empresário considerado não político que surfou na onda bolsonarista e assumiu para o primeiro mandato em 2019. Atualmente no segundo mandato, Denarium foi cassado quatro vezes por corrupção eleitoral e está com o julgamento dos processos parados nas gavetas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) há quase um ano, enquanto seu governo passou a se tornar um antro do crime organizado, conforme apontam as seguidas investigações da PF e da Polícia Civil.
CASOS EM FAMÍLIA

Os esquemas em Roraima se tornaram tão pesados que familiares do governador Denarium acabaram se envolvendo em crimes. A irmã do governador, Vanda Garcia de Almeida, foi alvo de uma operação da Polícia Federal no dia 10 de fevereiro de 2023, investigada por suspeita de integrar uma quadrilha acusada de lavar dinheiro do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, atividade ilegal esta que atraiu o crime organizado para a exploração ilegal de minérios, além do tráfico de droga e de armas – o narcogarimpo.
SOBRINHOS NO TRÁFICO

No dia 23 de abril de 2024, foi a vez de dois sobrinhos do governador, Fabrício de Souza Almeida e Antonio Olivério Garcia Bispo, serem presos pela Polícia Civil de Roraima com 145 kg de skunk, um fuzil, um revólver e milhares de munições, mostrando pela primeira vez fortes indícios de uma ação organizada do narcogarimpo em Roraima, tema que era tratado como um exagero por parte de quem não acreditava na contaminação da estrutura governamental pelo crime organizado.

INÍCIO DO PLANO
Como todos sabem, Denarium fez de tudo para favorecer o garimpo ao encabeçar um movimento que aprovou uma lei que ele sancionou legalizando o garimpo no entorno das terras indígenas e outra lei impedindo policiais e agentes estaduais de apreenderem equipamentos de garimpeiros. Essas duas leis foram derrubadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Denarium já havia reduzido o ICMS do combustível para aeronaves, logo no início do seu primeiro governo, facilitando a vida dos donos de aviões que faziam voos clandestinos para o garimpo ilegal.
BANDA PODRE
Não demorou para que, em outubro de 2024, duas operações realizadas pela Polícia Federal, em Roraima e São Paulo, visando desarticular um esquema de venda ilegal de armas de fogo e munições, deixaram bem claro no que se tornou o governo Denarium, cujo principal projeto político foi fortalecer seus amigos do agronegócio e transformar Roraima em um Estado dominado pelo narcogarimpo. As operações só revelaram o que todos já sabiam: uma banda podre dentro da Polícia Militar de Roraima, desta vez incluindo o comando da instituição.
CHEFE DO ESQUEMA

Homem de máxima confiança do governador Denarium, o então comandante-geral da PM, coronel Miramilton Goiano, é o principal investigado como suspeito de ser o chefe do esquema criminoso. Junto com seus dois filhos, o coronel é suspeito de vender armas e munições para policiais penais, entre eles o deputado estadual Rárison Barbosa, que por sua vez revendiam para garimpeiros ilegais da Terra Indígena Yanomami.
O GRANDE PROJETO
Embora o coronel Miramilton seja citado em duas investigações da Polícia Federal e Polícia Civil por envolvimento com formação de milícias que não só protegia empresários de garimpo como também assaltava garimpeiros, o governador Antonio Denarium o manteve no comando da PM até onde foi possível, não apenas por confiar nele, mas também para manter o grande projeto que terminou por descambar para o narcogarimpo. Antes de Miramilton assumir o comando da PM, desde fevereiro de 2023, alguns policiais militares já agiam em atividades ilícitas.
ATUAÇÃO DE MILÍCIA

No feriado de 7 de setembro de 2022, um assalto frustrado de uma aeronave na zona rural de Boa Vista deixou evidências claras de participação de oficiais da PM em milícias. Inclusive um PM morreu nessa ação criminosa, Ismael Palmeira da Silva, 32 anos, atingido pela asa do avião. A partir dali, uma investigação da Polícia Civil apontou que um grupo de PMs cometia diversos crimes e atuava como milícia, oferecendo serviço de vigilância privada para garimpeiros.
AÇÕES CRIMINOSAS
Inicialmente, os PMs agiam para intimidar garimpeiros de ouro e cassiterita na Terra Indígena Yanomami, mas passaram a praticar extorsão e roubo de toneladas de minérios para ficar com o lucro, além de vender proteção e armamentos aos garimpeiros. As investigações apontaram 40 policiais militares envolvidos em diversos atos ilícitos, como roubos, extorsões, torturas e execuções de garimpeiros. Mas, atualmente, cerca de 100 PMs são investigados por algum crime.
LIBERAÇÃO DE PMS

Enquanto isso, testemunhas ouvidas durante o inquérito sobre venda ilegal de armas apontaram que o então comandante da PM, Miramilton Goiano, não só sabia como também participava ativamente do esquema, sendo o cabeça do fornecimento de munições, armas e coletes a prova de bala, bem como liberava policiais militares que estavam de serviço para que trabalhassem na segurança privada. E esse foi o principal alvo das operações de outubro de 2024, as quais não foram motivos suficientes para mudanças no Comando da PM.
PROTEÇÃO A TESTEMUNHAS
Com todo esse apoio, a milícia se organizou e passou a realizar assaltos, extorsões, torturas e execuções de garimpeiros, bem como oferecia serviços de segurança, escolta e munições a outros grupos de garimpeiros ilegais. As acusações foram tão bombásticas que os depoentes entraram para o serviço de proteção a testemunhas. Ainda existem evidências de que os integrantes do grupo também atuariam no transporte de cocaína na fronteira com Venezuela e Colômbia por meio de aeronaves. Foi a evidência mais forte do narcogarimpo com participação de agentes de governo.
ARMAS E DROGA
Investigações apontaram que o garimpo na região de Pupunha, na Terra Yanomami, era um dos locais que recebia serviços de segurança prestados por PMs. O dono dessa área ilegal teria ligações com uma facção criminosa e, uma vez por semana, um helicóptero pousava com carregamento de drogas. Além da segurança privada, o local seria abastecido com armas e munições de calibre pesado pelos PMs.
MAIS ENVOLVIMENTO
O envolvimento do então comandante da PM, Miramilton Goiano, em supostos crimes não pararam por aí. Em outra investigação da Polícia Federal sobre uma facção criminosa com atuação dentro da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, apareceu o nome do coronel Miramilton e do filho dele, o agente penitenciário Renie Pugsley de Souza. Eles passaram a ser suspeito justamente de vender armas e munições aos criminosos, o que mostra novamente conexão com o alvo das operações da PF desta quarta-feira.
VISITAS NA PAMC
Miramilton e o filho fizeram três visitas consideradas irregulares ao detento Jonathan Novaes de Almeida, preso na Operação K’daai Maqsin, em 2019, que investigou uma organização criminoso responsável por vender armas e munições ilegalmente para garimpos e facções criminosas. O detalhe importante é que o preso Jonathan trabalhou numa empresa de vigilância que era administrada pelo coronel Miramilton. Ou seja, indícios fortes não faltam.
TEM MAIS AINDA

O então comandante da PM, coronel Miramilton, é investigado no caso da morte de um casal no Cantá, em 23 de abril de 2024, executado a tiros em uma disputa por terra com a participação do capitão da PM Helton John da Silva de Souza, que à época era o responsável pela segurança do governador Denarium. O coronel é suspeito de ter interferido no caso. O detalhe é que Helton congrega na mesma igreja evangélica em que o coronel Miramilton é pastor. O bizarro nesse caso é que, depois do crime, o capitão foi jogar futevôlei no complexo Ayrton Senna com os amigos. O principal suspeito de assassinar o casal, o empresário Caio Porto, segue foragido.
NORMALIDADE
Como é possível visualizar, muda o comando dos governos, mas seguem os mesmos escândalos que incluem garimpo ilegal, que por sua vez atrai outros crimes, como venda de armas e munições, tráfico de droga, além da corrupção na política, que acaba se conectando com os demais crimes. Apesar de tudo isso está às claras, os políticos seguem ser ser incomodados, como se os escândalos estivessem normalizados, inclusive com os envolvidos nos seguidos esquemas já tramando para se candidatarem nas próximas eleições.
