Criado em 05 de outubro de 1988, o Estado de Roraima tem uma longa história banhada de sangue indígena e marcada pela cobiça internacional, além da busca por um ouro lendário que até hoje alimenta o imaginário popular, cuja trajetória foi marcada por corridas migratórias intensas

Pelo Rio Branco chegaram os primeiros colonizadores portugueses a Roraima. Mas o vale que envolve o mais importante afluente do Rio Negro – que, no encontro com o Solimões, forma o Rio Amazonas – sempre foi cobiçado por ingleses e holandeses, através da Guiana, que por lá estiveram em busca de indígenas para escravizá-los.
O período de descoberta do Rio Branco teve início em 1750 e se estendeu até meados do século 19. Quase todas as terras de Roraima fazem parte da Bacia do Rio Branco. Apenas uma pequena parte, cerca de 16%, é banhada pelo Rio Jauaperi, no limite com o Estado do Amazonas.
O nome “Rio Branco” foi dado por Pedro Teixeira, colonizador português que, em 1639, quando navegava de Belém para Quito pelo Rio Solimões, próximo do encontro das águas do Solimões e do Negro, deparou-se com um grupo de indígenas que diziam ter vindo de um rio de águas brancas que existia no Alto Rio Negro.
Teixeira chamou então de Branco esse rio, que antes os povos indígenas denominavam de Queçoene ou Queçovene. Ele imaginava que por esse rio fosse possível uma conexão entre as terras da colônia holandesa e o Brasil.
Apesar disso, até o início do século 18 a região do Rio Branco foi esquecida pela Coroa Portuguesa. Os primeiros colonizadores a penetrar no Rio Branco foram Francisco Ferreira e frei Jerônimo Coelho.
Seus objetivos eram pouco nobres: aprisionar indígenas e recolher tartarugas e seus ovos para fazer a manteiga que servia como combustível na iluminação pública da cidade de Belém do Pará, para onde os indígenas aprisionados eram levados como escravos.
Nessa época, outros expedicionários subiram o Rio Branco com propósitos semelhantes, entre eles Lourenço Belfort e Cristóvão Aires Botelho. Em 1741, o governo enviou a primeira tropa de resgate comandada por José Miguel Aires. Segundo o governo que a criou e enviou ao Rio Branco, o objetivo era se fazer respeitar no interior e resgatar indígenas.
A região do Rio Branco sempre foi muito cobiçada pelos europeus. Os mais interessados eram os holandeses, ingleses e espanhóis, que diversas vezes tentaram ocupar a região. Um holandês de nome Nicolau Horstman partiu da colônia holandesa no litoral, atingiu o Rio Branco e por ele desceu até o Rio Negro.
A empreitada despertou a preocupação portuguesa com a área, uma vez que confirmava a existência de transações entre os holandeses e os indígenas do Rio Branco, através dos rios Tacutu e Jauaperi, no território hoje pertencente à Guiana.
Já os espanhóis, vindos do Rio Orinoco, na Venezuela, entre 1771 e 1773, invadiram o território português do Rio Branco, estabelecendo-se no Rio Uraricoera, onde fundaram três núcleos populacionais: Santa Rosa, São João Batista de Cada-Cada e Santa Bárbara.
A ocupação surpreendeu os portugueses, que julgavam pouco provável que os espanhóis pudessem transpor a cordilheira existente entre o Brasil e a Venezuela. Mas eles o fizeram justamente pela cabeceira do Rio Uraricoera, que delimita a fronteira entre os dois países.

A partir daí, a defesa e a ocupação definitiva do vale do Rio Branco passou a ser uma preocupação real do Governo Português. Já em 1752, o soberano português havia determinado a construção de um Forte na confluência dos rios Uraricoera e Tacutu, mas até fins do século 18 a ordem ainda não havia sido cumprida.
Confirmada a presença de espanhóis no Vale do Rio Branco, o Governo Português contratou o capitão alemão Philip Sturn para expulsá-los e, finalmente, construir o Forte, que ficou pronto em 1776 e recebeu o nome de Forte São Joaquim do Rio Branco. Por sua posição de caráter estratégico-militar, o Forte desempenhou um papel importante na conquista definitiva da região do Rio Branco.
Forte de São Joaquim e a cobiça internacional

O Forte São Joaquim do Rio Branco foi a primeira repartição pública criada oficialmente no Vale do Rio Branco, e serviu de base para a evangelização dos nativos e de moradia para um capitão carmelita e um pároco capuchinho.
No ano de 1780, esses religiosos relatam o batismo de 700 pessoas, grande parte delas crianças. Nem o Forte nem as fazendas tiveram a devida atenção do governo. Nos anos seguintes foi aguçada a cobiça inglesa pela região, apesar da existência do forte. Essa cobiça pode ter surgido já em 1803, quando da guerra entre Holanda e Inglaterra.
Até então, a Inglaterra não tinha possessões na América do Sul, e foi em 1803 que a Coroa Britânica tomou posse de Essequibo, Demerari e Berbice, na costa norte da América do Sul na fronteira com o Brasil
Em 1789, o coronel Manoel da Gama Lobo d’Almada, governador da capitania do Rio Negro, visitando a região, encantou-se com a beleza dos campos naturais do Rio Branco e introduziu o gado bovino nesses campos, levando para a região, de canoa a remo, as primeiras reses de Tefé, no Amazonas.
Logo em seguida, em 1794, o Governo Português criou, no Rio Branco, as chamadas Fazendas do Rei: São Marcos (com estrutura ainda existente na Terra Indígena São Marcos), São José e São Bento.
Em 1835, Robert Hermann Schomburgk, um alemão a serviço da Coroa Inglesa, devidamente autorizado pelo Governo do Brasil, entrou no território nacional pelo Rio Tacutu com o propósito oficial de estudar este divisor natural entre o Brasil e a então Guiana Inglesa.

Schomburgk enviou relatórios a Londres sugerindo que as terras por ele visitadas pertenciam à Inglaterra, quando na verdade ele estava dentro do Vale do Rio Branco, em terras brasileiras, atualmente o Estado de Roraima. Chegou mesmo a desenhar um mapa indicando uma nova fronteira para a região.
O Governo Inglês acreditou no seu emissário e deu ordens para que ele mesmo colocasse marcos ingleses nas terras que ele julgava serem da Inglaterra. Ainda hoje é possível encontrar marcos ingleses nos rios Maú, Cotingo e Surumu, todos pertencentes à Bacia do Rio Branco.
Esse fato foi relatado em 1841, por Frei José dos Santos Inocentes, que alertou as autoridades brasileiras que os ingleses estavam assentando marcos divisórios muito além dos limites fronteiriços do Brasil com a Guiana.
A ousadia de Schomburgk resultou numa questão de limites entre a Inglaterra e o Brasil que se estendeu até 1903, quando a questão foi submetida ao rei Vitório Emanuel III, da Itália. O Brasil foi defendido nesse episódio por Joaquim Nabuco.
O rei italiano, no entanto, estabeleceu o limite entre os dois países pelo Rio Tacutu. Com essa sentença, o Brasil perdeu 19.630 km2 de terras para a Inglaterra, hoje pertencente à República Cooperativista da Guiana (ex-Inglesa).
Colonização e a Revolta da Praia de Sangue

A História de Roraima, quanto à sua ocupação, pode ser dividida em quatro períodos: de 1750 a 1800, de 1800 a 1890, de 1891 a 1943, e a partir de 1943. De 1750 a 1800, o que ocorreu em relação à colonização foi a tentativa de aldeamento dos indígenas, concentrando-os em povoações como as de Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora da Conceição, São Felipe, Santa Bárbara e Santa Isabel.
As regras do colonizador para esses aldeamentos humanos eram duras e injustas com os indígenas, que não estavam acostumados a viver desse modo. Por causa da privação de liberdade, os indígenas se revoltaram.
O acontecimento culminou, em 1790, num episódio que entrou para a História como a Revolta da Praia do Sangue, quando os indigenas enfrentaram os portugueses e foram derrotados. Os que fugiram foram feitos prisioneiros, inclusive o líder indígena Parauijamari que, depois de capturado, foi morto para servir de exemplo.
O fato histórico ficou conhecido por sua violência e, segundo relatos, tingiu de vermelho as águas do Rio Branco. A notícia dessa revolta correu entre os vilarejos. Não satisfeito, o governador da província João Pereira Caldas, sediado em Belém do Pará, resolveu declarar guerra aos indígenas.
Os capturados recebiam como punição uma marca a ferro quente. Quando a notícia chegou a Portugal, a Coroa resolveu trocar o governador e conceder anistia. Em 1794, ao som dos tambores, o perdão foi anunciado aos insurretos do Rio Branco na praça principal de Barcelos e afixado no forte São Joaquim do Rio Branco.
O período seguinte, de 1800 a 1890, prosseguiu com a opressão dos nativos pelos colonizadores, e foi marcado pela iniciativa de Manoel da Gama Lobo d’Almada de introduzir o gado nos campos naturais, o que atraiu brasileiros de outras regiões do País.

Os nordestinos acossados pela seca de 1877 vieram aventurar-se nas terras do Rio Branco. Esses novos habitantes dedicaram-se principalmente à pecuária, mas se limitavam a criar o gado solto no campo, nas terras que julgavam devolutas.
Como não tinham mão de obra que bastasse e suas fazendas não eram autossuficientes, dependiam dos indígenas para as lides do campo e para a complementação alimentar. Trocavam com eles carne de boi por farinha de mandioca.
Os indígenas, por sua vez, logo se tornaram vaqueiros de rara habilidade, embora até então desconhecessem o gado bovino. O gado criado solto no Rio Branco era vendido em Manaus (AM) e transportado por via fluvial durante o inverno.
Havia uma espécie de escambo: os fazendeiros recebiam dos “aviadores” de Manaus as mercadorias de que necessitavam para sua manutenção anual e pagavam com boi. O transporte entre Manaus e os portos de embarque próximos às fazendas era feito por “batelões” acoplados a rebocadores conhecidos como “motores de linha”.

Dessa época para frente, o Forte São Joaquim entrou em decadência, e dos povoados antigos apenas o de Nossa Senhora do Carmo sobreviveu. Neste lugar o capitão Inácio Lopes de Magalhães, ex-comandante do Forte, criou a fazenda Boa Vista, que cresceu e se modificou, dando origem à cidade de Boa Vista.
Por essa razão, o capitão Inácio Lopes de Magalhães é considerado o fundador de Boa Vista. O período entre 1891 e 1943 assistiu ao florescimento do Município de Boa Vista do Rio Branco, criado em 9 de julho de 1890 por ato do governador do Amazonas Augusto Ximeno de Ville Roy.
Com a criação do município, a governança local passou a ser exercida por um superintendente (prefeito). O primeiro a ser nomeado para esse cargo foi João Capistrano da Silva Mota que, embora fosse sargento da Guarda Nacional, ficou conhecido como “Coronel Mota”.
Em 1938, o nome original de Boa Vista do Rio Branco foi simplificado para apenas Boa Vista, por força de lei estadual amazonense, que estabeleceu uma nova divisão administrativa e judiciária para o Estado e dividiu o município em três distritos: Boa Vista, Caracaraí e Murupu.
Nesse período, Boa Vista dependia unicamente do gado que produzia. Em 1943, por uma decisão unilateral do presidente Getúlio Vargas, foi criado o Território Federal do Rio Branco.
Na verdade, Vargas não foi original. Ele seguiu conselhos de várias pessoas, entre elas o naturalista norte-americano Louis Agassis que, depois de percorrer as terras banhadas pelo Rio Amazonas, afirmou que o governo dessas províncias “poderia ser organizado como aqueles dos territórios que, nos Estados Unidos, são embriões dos Estados. Ele estimularia as energias locais e desenvolveria os recursos, sem embaraçar a ação do Governo Central”.
O governador era nomeado pelo presidente da República, e este nomeava o prefeito da única cidade e capital, Boa Vista. Em 1955 foi criado o segundo município de Roraima, Caracaraí, e também para ele o governador nomeava o seu prefeito.
O primeiro a governar Roraima foi o capitão de cavalaria Ene Garcez dos Reis, responsável pela implantação do Território Federal e pela condução dos primeiros passos do novo ente federativo.
O primeiro lugar de trabalho do governador foi a Prelazia do Rio Branco, uma espécie de mosteiro de beneditinos que, à época, era o único prédio digno construído em alvenaria na cidade.
Colonização definitiva com chegada de migrantes

Com a criação do Território Federal, em 13 de setembro de 1943, foi lançada a semente de uma colonização definitiva para Roraima. Imigrantes de diversos estados nordestinos ocuparam as primeiras colônias agrícolas (Fernando Costa em Mucajaí, Braz de Aguiar no Cantá e Coronel Mota no Taiano). A colônia agrícola de Fernando Costa notabilizou-me por acolher colonos do Maranhão.
Na década de 1980 foram mais de 42 colônias agrícolas implantadas com largo incentivo para a vinda de colonos de outros estados. Das três colônias iniciais, Mucajaí e Cantá tornaram-se município.
Roraima, ao longo de sua história, foi palco de migrações nordestinas da Paraíba, do Ceará, de Pernambuco, do Rio Grande do Norte, do Piauí e também do Pará e do Amazonas. Anos mais tarde, principalmente depois do Projeto Rondon (na década de 1970), vieram gaúchos e paranaenses.
Em 1962, a denominação de Território do Rio Branco foi modificada para Território Federal de Roraima atendendo ao clamor popular, alegando enfrentar dificuldades com a confusão causada pela denominação da capital do Acre (Rio Branco). As correspondências, e mesmo o destino de pessoas, eram trocados do Acre para Boa Vista e vice-versa.
O autor da lei foi o deputado roraimense e ex-governador do Acre Valério Caldas de Magalhães. Até 1964, os governadores nomeados tiveram uma permanência muito curta em Roraima. As ingerências políticas e as condições locais adversas faziam com que a média de permanência dos governadores fosse de apenas 16 meses.
De 1964 a 1981, o Governo Militar brasileiro entregou governança local aos militares da Aeronáutica e, com isso, os nomeados tiveram que “cumprir sua missão” em tempo maior: 32 meses. Isso teve repercussão no processo administrativo e na realização das obras de infraestrutura do Estado.
Apesar da administração tumultuada dos Territórios Federais, a História reconhece que os equipamentos e projetos coletivos que se constituíram instrumentos de fixação dos fluxos migratórios dirigidos àqueles entes federativos, foram produzidos em maior escala nos Territórios do que em qualquer outro lugar das regiões Norte e Centro-Oeste
Com a transformação de Território Federal no Estado de Roraima, por força de dispositivo da Constituição de 1988, a população passou a eleger seus governadores, e o primeiro governador eleito pelo voto direto foi o brigadeiro Ottomar de Sousa Pinto, que foi governador durante o período como Território Federal.
O segundo foi o engenheiro roraimense Neudo Ribeiro Campos, seguido do engenheiro cearense Flamarion Portela, que foi cassado e substituído no meio do mandato pelo segundo colocado nas eleições, o brigadeiro Ottomar de Sousa Pinto que, após ser reeleito, acabou por falecer dois anos depois e foi substituído por seu vice, José de Anchieta Junior, engenheiro também nascido no Ceará.
Capital planejada
Um dos trabalhos mais significativos do primeiro governador, Ene Garcez, foi a contratação do engenheiro Darci Deregusson para o planejamento urbano da cidade de Boa Vista.
Naquela época a cidade tinha apenas cinco ruas, sendo duas paralelas ao rio Branco (avenida Floriano Peixoto e rua Bento Brasil) e três transversais (ruas Jaime Brasil, Inácio Magalhães e José Magalhães). O restante era apenas lavrado.
Surgimento do garimpo na Serra do Tepequém

A exploração mineral em Roraima surgiu ocasionalmente na primeira metade do Século 20. Ao campear o gado espalhado na imensidão dos campos, os vaqueiros encontraram as primeiras pedras de diamante nos igarapés que descem dos contrafortes das montanhas roraimenses.
O primeiro garimpo a ser conhecido foi o da Serra do Tepequém entre 1934 e 1936, cuja exploração atualmente é permitida apenas para a comunidade, mas de modo rudimentar, conforme a Portaria no 143, de 31 de janeiro de 1984.
Com a proibição dos garimpos em Roraima no final da década de 1990, a atividade caiu muito. Atualmente, a Serra do Tepequém é um ponto turístico, localizada ao Norte do Estado, no Município de Amajari.
Com a descoberta de ouro na região de Surucucus, na década de 1980, uma intensa corrida garimpeira para aquela região, hoje Terra Indígena Yanomami. Em determinado momento, o Aeroporto de Boa Vista tornou-se o mais movimentado do País em função do atendimento aos garimpos de ouro da região.
Essa febre garimpeira esfriou com a criação, pelo presidente Collor de Mello, do Parque Nacional Yanomami, que mais tarde foi homologada como terra indígena com uma área de 9.667.875 hectares que abrange os municípios de Alto Alegre, Mucajaí e Caracaraí, em Roraima, e Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

Viajantes e naturalistas em busca do El Dorado
O Eldorado é um lugar lendário que permeou o imaginário nos séculos 15 e 16 e estaria localizado em Roraima. Não se sabe ao certo se seria um lago ou uma cidade toda de ouro, mas o fato é que foi procurado por muitas expedições europeias.
Em 1595, Sir Walter Ralegh, a serviço da Coroa Britânica, esteve por duas vezes nas proximidades do Monte Roraima, entrando pelo Rio Orinoco. O relato de suas viagens foi publicado com o título de “O caminho do Eldorado” e claramente remete a Roraima como o lugar mítico procurado.
Mais recentemente, o escritor chileno Roland Stevenson escreveu o livro “Em busca do El Dorado”, no qual afirma que o lavrado de Roraima era um grande lago que rodeava o El Dorado e que, por conta da sedimentação lacustre do solo do lavrado (planície), “o lago desapareceu, uma vez que a área esteve submersa desde que o gráben do Tacutu se comunicava com o Atlântico, tendo começado a se extinguir por volta de 700 anos atrás, provocado por um processo chamado epirogênese positiva, de elevação constante da superfície”.
No século 18, foram muitos os naturalistas e viajantes que adentraram o Rio Branco. Em épocas mais remotas, havia também exploradores que organizavam expedições à procura de indígenas para capturar e vender como escravos para as fazendas do Pará e do Maranhão.
Em 1777, Francisco Xavier Ribeiro Sampaio, ouvidor da Capitania do Rio Negro, percorreu o Rio Branco com a missão de trazer ao governo informações geopolíticas referentes à invasão espanhola na região do Alto Uraricoera, que resultou na consolidação do Forte São Joaquim do Rio Branco, construído dois anos antes. Ribeiro Sampaio aproveitou sua viagem para descrever a fauna, a flora e os costumes indígenas da região.
É interessante notar que a lenda do El Dorado jamais foi acreditada pelos colonizadores portugueses, mas sim por outros povos europeus, principalmente os espanhóis, e hoje esses livros fazem parte da literatura narrativa regional.
Estudiosos famosos visitaram Roraima

No Século 19, aumentou muito o número de naturalistas que visitaram o Vale do Rio Branco, principalmente estrangeiros, atraídos pela exuberante fauna e flora da região, bem como pelos costumes indígenas, tão exóticos para o olhar europeu.
Entre eles, destacam-se Natterer, austríaco que percorreu a região em 1831 e reuniu uma extensa coleção de insetos e aves; o inglês Alfred Russel Wallace, autor de Viagens pelos rios Amazonas e Negro; os botânicos Richard Spruce e Gustav Wallis; os ornitólogos Jean-Louis Rodolphe Agassiz e Newton Dexter; e o francês Henri-Anatole Coudreau, que se dedicou ao estudo das tribos da região.
A maior parte do vasto material produzido por esses naturalistas infelizmente não se encontra no Brasil, mas em museus e universidades do exterior. O Monte Roraima foi escalado pela primeira vez em 1884 por dois ingleses, Everard Im Turn e Harry Perkins, que estudaram a geologia e a botânica da região.
E até um conde italiano, de nome Ermano Stradelli, foi mandado ao rio Branco para descrever a região, por ocasião da sentença da questão dos limites das terras portuguesas e inglesas, que deveria ser resolvida pelo monarca italiano.
Todavia, foi o alemão Theodor Koch-Grunberg, já em meados do Século 20, quem mais se destacou no estudo antropológico, concentrando-se na tríplice fronteira de Brasil, Venezuela e Guiana. Escreveu o precioso Vom Roraima zum Orinoco (De Roraima ao Orinoco), em cinco volumes, que está na Biblioteca Central de Berlim.
Esse livro descreve aspectos culturais dos povos indígenas em detalhes, com desenhos que impressionam pela delicadeza e precisão. Produziu também uma boa documentação fotográfica e um ensaio cinematográfico da região do Surumu. Koch-Grunberg morreu de malária em Caracaraí. Ainda hoje caravanas de alemães vão àquela cidade conhecer o túmulo do cientista.
Outros naturalistas que passaram por Roraima no século passado foram: o americano Hasmann, que se dedicou à geografia e à ictiofauna da região da serra da Lua; o brasileiro Kuhlmann, que veio atrás de borracha e concentrou-se nas proximidades da cachoeira do BemQuerer; o ornitólogo norte-americano Anderson; Willian Curtis Farabee, que fez diversas explorações na região da ilha de Maracá; o botânico Adolpho Ducke, que percorreu a Serra Grande e o Murupu, Caracaraí e Cauamé; o geólogo brasileiro Glaycon de Paiva; e o grande cientista brasileiro Carlos Chagas, que esteve em Roraima para avaliar as condições sanitárias.
Merece destaque a visita de Hamilton Rice, entre 1924 e 1925. Rice era membro da American Geographical Society e, junto à Universidade de Harvard, organizou a primeira expedição ao Rio Branco feita num avião, do qual foi tirada a primeira fotografia aérea de Boa Vista.
O relato do explorador foi publicado com o título de Exploração na Guiana Brasileira. Junto com Rice veio o brasileiro Silvino Santos, que fez um filme de 20 minutos com o título de Em busca do Eldorado, editado pela BBC inglesa.
O único brasileiro que recebeu título da nobreza portuguesa com topônimo da região do Rio Branco foi o coronel Francisco Xavier Lopes de Araújo, que ficou conhecido como Barão de Parima. Ele esteve em Roraima com a Comissão Demarcadora de Limites com a Venezuela.
Também o Marechal Rondon esteve em Roraima a serviço dessa comissão. Ele percorreu diversas comunidades indígenas e subiu o Monte Roraima, onde colocou um marco na tríplice fronteira entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana. Com Rondon veio o alemão Phillip Freiherr Von Luetzelburg, que aproveitou a expedição para coletar exemplares da fauna regional.
Vale citar ainda Harald Sioli, liminólogo alemão, que em 1951, visitou e coletou dados referentes à química e à física dos rios Branco e Cauamé e dos igarapés do Caxangá, da Mecejana e do Frasco. Sioli ingressou nos quadros do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) em Manaus e contribuiu significativamente para o desenvolvimento científico da região.
Outro nome importante é o de Alberto Pinkus, colecionador profissional, que percorreu as cabeceiras do Rio Cotingo até o Monte Roraima, acompanhado de outro especialista, P. S. Peberdy, também interessado na avifauna do Rio Branco.
Antônio Teixeira Guerra, geógrafo brasileiro, esteve em Roraima em 1951, escreveu o livro Estudo geográfico do território do rio Branco, em que descreve o clima, a vegetação, o modo de ocupação da terra etc.
Mesmo em épocas mais recentes, cientistas estrangeiros continuam visitando o vale do Rio Branco. O botânico norte-americano Bassett Maguire, em 1954, visitou a Serra do Tepequém e o Rio Cotingo. Masayuki Takeuchi, botânico da Universidade de Tóquio e pesquisador do INPA, descreveu os campos naturais de Roraima (lavrados) e andou pelos rios Uraricoera, Tacutu e Branco.
William Phelps, ornitólogo, percorreu as proximidades da Serra do Sol e descreveu 49 novas espécies de aves que habitam a tríplice fronteira. Enrique Forero, do New York Botanical Garden, em 1967, esteve no Monte Roraima interessado na sua botânica.
Ghillen Prance, em 1969, como pesquisador ligado ao INPA, percorreu muitas localidades em Roraima como as serras da Lua, Surucucus, Tepequém, Auaris, e os rios Branco, Mucajaí, Apiaú e Uraricoera. Seu interesse era a teoria dos refúgios florestais.
Francis Ruellan, professor da Universidade de Paris, esteve a serviço do INPA no Rio Branco entre 1954 e 1955, com o propósito de estudar a geomorfologia para melhor compreender as paisagens locais. André Aubréville, botânico francês ligado ao INPA, percorreu a região do Taiano.
William Rodrigues percorreu Boa Vista, Normandia, Pedra Branca e Maturuca, além dos rios Cotingo, Uailã e Surumu, coletando material para o herbário do INPA. Em 1957, outra expedição especializada em geomorfologia foi empreendida em Roraima sob a chefia de Aída Ostroff Ferreira de Barros, que realizou diversos estudos do gênero na bacia hidrográfica dos rios Cotingo e Surumu.
Outros brasileiros lá estiveram, como Otávio Barbosa e José Raimundo de Andrade Ramos, ambos geólogos, que percorreram parte da Bacia do rio Branco, entre 1955 e 1956, com o objetivo de promover um reconhecimento mais detalhado da região, como subsídio ao planejamento da então recém-criada Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), com sede em Belém do Pará. Cory Carvalho, a serviço do Museu Emílio Goeldi, de Belém do Pará, veio com o propósito de coletar dados da fauna de mamíferos.
Expedições religiosas
Além das expedições científicas, houve em Roraima várias expedições religiosas, como por exemplo as realizadas pelos padres Ildefonso Deigendesch e Alcuino Meyer, alemães que, nas décadas de 1930 e 1940, percorreram a pé a bacia do Alto Rio Branco até o Monte Roraima, visitando cada maloca que encontravam.
Seus relatos não apenas de ordem religiosa, colaboram com a ciência ao descreverem, por exemplo, a ocorrência de minérios radioativos e bauxita na região do Quinô e até lençóis de petróleo nos rios Mucajaí e Catrimani.
Mas o verdadeiro naturalista que o Rio Branco conheceu no Século 18 foi Alexandre Rodrigues Ferreira, que viajou pela região em 1786. Seu principal legado foi a descrição detalhada da fauna e da flora encontrada no Vale do Rio Branco. Seu trabalho foi levado a Portugal e depositado no Real Museu de Lisboa, mas, na invasão de Napoleão Bonaparte, ele foi confiscado e encontra-se hoje, em grande parte, no Museu de História Natural de Paris.
Ferreira escreveu também um tratado muito interessante sobre o Rio Branco, denominado Diário do Rio Branco, que está atualmente na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
O naturalista austríaco Johann Natterer que esteve no Brasil entre 1817 e 1835, quando integrou a missão austríaca que acompanhou a imperatriz Leopoldina. Ao desembarcar no Rio de Janeiro, Natterer tinha 29 anos e experiência como caçador, desenhista e lingüista.
Ele percorreu quase todo o País, especialmente o litoral do Rio de Janeiro e São Paulo, além das regiões Centro Oeste e Norte. Em 1831 chegou a Roraima pelo Rio Branco, onde coletou vasta coleção de insetos e aves. Responsável pela maior coleção de animais brasileiros da época, hoje exposta no Museu Imperial de História Natural de Viena, é tido como um dos pesquisadores mais produtivos e importantes do século 19 no Brasil.
Fonte: História de Roraima – Guia Turístico do Governo de Roraima 2009
