As seis pedras de gelo de ouro e a verdadeira preciosidade que saiu da Expoferr

Cantor postou nas redes sociais as pedras de gelo de ouro que recebeu de presente (Imagem: Reprodução)

Independente do que representa a realização da tradicional Exposição-Feira Agropecuária de Roraima (Expoferr), que foi encerrada no fim de semana, as cenas que ficaram marcadas foram duas. A primeira delas, a do cantor Natanzinho Lima que ganhou seis pedras de gelo de ouro, o que ele chamou de “presente de cachorro” ao ostentar duas dessas pedras dentro de um copo de uísque.

A segunda cena que ficou marcada foi a da artista roraimense Anna Louise, a primeira e única sanfoneira do Norte do país, um prodígio desde criança e que, no palco da Expoferr, recebeu do próprio cantor João Gomes o anúncio de que ele irá empresariar a jovem artista roraimense.  Essa, sim, uma verdadeira joia roraimense que já merecia há tempos um reconhecimento nacional pelo seu talento nato.

Estamos diante uma dura constatação: a do brilho do ouro que é arrancado criminosamente das entranhas das terras indígenas de Roraima, que por sua vez é raiz de outros graves crime que vêm a reboque do narcogarimpo. As duas pedras de gelo de ouro dentro do copo de uísque do cantor têm a simbologia do escárnio que os ostentadores do garimpo ilegal fazem em Roraima.

Por mais que as autoridades federais tenham combatido o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, as grandes apreensões de ouro pela Polícia Rodoviária Federal nas rodovias em Roraima mostram o tamanho do desafio por partes das autoridades e da audácia dos que seguem financiando o garimpo ilegal e tentando lavar o ouro extraído ilegalmente das terras indígenas.

O mais sensato que as autoridades federais têm a fazer é investigar a origem dessas pedras de gelo de ouro para mostrar que em Roraima não se tolera “brincar de midas” com um ouro sujo de sangue indígena e contaminado pela criminalidade que se abateu em Roraima a partir de facções que exploram o garimpo ilegal como forma de aumentar seu poderio no país.

No mais, resta celebrar a riqueza artística que Roraima dispõe, a exemplo da Anne Sanfoneira, a joia preciosa que precisava mesmo ser exportada para o cenário nacional, assim como outros artistas locais que esperam uma oportunidade para ao menos se apresentarem em eventos locais, mas são desprezados ou preteridos pelas políticas de exclusão.

Que o brilho do ouro ilegal e facínora seja substituído pelos brilhos de nossas verdadeiras riquezas artísticas e culturais, que esperam por incentivos e investimentos por parte de nossos governantes. Essa riqueza precisa ser explorada por políticas públicas que valorizem nossos talentos em várias áreas da música, das artes plásticas, das danças, dos palcos, da literatura e todas as outras.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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