Super Bowl e a América do Sul de ponta-cabeça: o que os latino-americanos precisam sentir

Momento histórico da apresentação do rapper porto-riquenho Bad Bunny no Super Bowl (Foto: Divulgação)

Impossível ficar alheio à surpreendente repercussão da apresentação do rapper porto-riquenho Bad Bunny no intervalo do maior evento esportivo dos Estados Unidos (EUA), o Super Bowl, realizado no domingo, evento que se tornou mundial e que pode ser comparado em termos de paixão nacional a uma final brasileira na Copa do Mundo. Para se ter a ideia desse templo do poder, cada 30 segundos de evento custam 8 milhões de dólares (R$42 milhões).

Em um momento de fortes tensões mundiais, em que os EUA invadiram a Venezuela para prender o presidente daquele país, que faz fronteira com Roraima, e segue ameaçando outros países da América do Sul, o espetáculo de Bad Bunny  rapidamente provocou reações políticas mundiais, não só pelo impacto cultural no coração do evento que representa o símbolo de poder dos norte-americanos, mas principalmente pelos símbolos, cenários e mensagens que celebram a identidade latina nas Américas.

Foram necessários 83 anos para que a mensagem de um importante obra, chamada de “América Invertida”,  um desenho do mapa invertido da América do Sul, feita de caneta e tinta em 1943, do artista hispano-uruguaio Joaquín Torres García, saltasse do papel para uma realidade transmitia ao vivo durante um evento mundial massivo. O mapa da América do Sul de ponta-cabeça é uma obra artística sociopolítica destinada a combater o imperialismo cultural americano e outras normas cartográficas e culturais enraizadas na colonização europeia das Américas.


América Invertida, obra do artista hispano-uruguaio Joaquín Torres García de 1943

O que rapper porto-riquenho Bad Bunny fez naquele evento de domingo foi exatamente isso o que Garcia afirmou ao explicar sua obra: “Nosso norte é o sul. Não deve haver norte para nós, exceto em oposição ao nosso sul. Portanto, agora nós viramos o mapa de cabeça para baixo, e então temos uma ideia verdadeira de nossa posição, e não como o resto do mundo deseja. O ponto da América, de agora em diante, para sempre, aponta insistentemente para o sul, nosso norte”.

Foi isso o que fez Bad Bunny, quando proferiu a frase “Deus abençoe a América” e, em seguida, caminhou listando todos os países que compõem o continente americano enquanto dançarinos carregavam bandeiras de cada uma das nações. Assim como artista hispano-uruguaio Joaquín Torres García fez com o mapa da América do Sul de ponta-cabeça, o rapper porto-riquenho também idealizou que nós, latino-americanos, possamos olhar para nós mesmos a partir da nossa própria perspectiva, nos libertando do espelho nortecêntrico e, por que não, eurocêntrico.

Essa repercussão mundial deveria inundar as salas de aula não só brasileiras, mas latino-americanas, para que “possamos nos sentirmos dignos em qualquer lugar que pisarmos, para que possamos desenvolver nossa autoestima e sermos respeitados e valorizados pelo nosso conhecimento e diversidade, Nosso norte é o Sul!”.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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