
Enquanto a Polícia Militar tenta se equilibrar para manter sua credibilidade institucional e fazendo mudanças a fim de fazer frente ao avanço da criminalidade, com uma tenente-coronel assumindo o comando do 2º Batalhão, a realidade se apresenta. Na tarde de sábado, mais um homicídio tendo como vítima um venezuelano, executado a tiros em via pública no bairro Buritis, área conflagrada por facções que disputam território em acertos de conta.
E não se trata de uma realidade apenas da periferia da Capital, que se estende pela zona Oeste, área de atuação do 2º Batalhão. No Centro, uma mulher foi assassinada na sexta-feira em uma área dominada pelo tráfico de drogas, por onde circulam os viciados zumbis em situação de rua, em que um deles foi preso sob suspeita de cometer o homicídio, um venezuelano com uma ficha corrida no crime e que já cumpria pena por uma série de crimes e delitos.
A situação chegou a um nível tal que até mesmo na Praça do Centro Cívico, mais precisamente no entorno do Palácio do Governo, um casal não se intimidou em fazer uma foto na frente de uma viatura da PM estacionada no local, fazendo o símbolo de uma das facções que dominam o Estado. Isso mostra fielmente como os bandidos se sentem ao agir na cidade, às claras e de forma audaciosa, desafiando o poder policial e não respeitando sequer a sede do Poder Executivo.
Aliás, essas viaturas da polícia estacionadas no entorno do Palácio dizem muito sobre a situação da Segurança Pública. Enquanto esses veículos aguardam uma solenidade política para serem entregues, servindo de propaganda visual para parecer que está tudo indo muito bem, os próprios policiais militares denunciam o que eles chamam de problemas estruturais enfrentados especialmente pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).
Na denúncia que eles fizeram à FolhaBV, ao enviarem a foto do casal fazendo com os dedos o símbolo de uma facção criminosa, os policiais dizem que parte significativa da frota da PM está sucateada e fora de operação, enquanto essas viaturas novas permanecem paradas na Praça do Centro Cívico servindo de vitrine e de local ideal para os bandidos fazerem selfies enaltecendo facções criminosas.
Para complicar ainda mais a imagem da PM, até um acidente de trânsito acaba se cruzando com a imagem negativa que alguns policiais têm feito da instituição militar: a filha do capitão da PM acusado de participar do assassinato de um casal no Cantá, em 23 de abril de 2024, foi flagrada por imagens de câmeras de segurança atropelando uma mulher de moto, uma auxiliar de enfermagem que faleceu momentos depois no hospital.
O brutal assassinato envolvendo o capitão da PM, que era responsável pela segurança do governador, vai completar dois anos e segue impune até hoje, com o principal acusado de ter disparado os tiros que mataram o casal, o empresário Caio Porto, mantendo-se foragido e vivendo provavelmente na Venezuela, de onde comanda seus negócios em família.
Da mesma forma que seguem impunes outros policiais militares acusados de vários crimes, como assassinato, feminicídio, formação de milícia, segurança privada para empresários de garimpo, sequestro e tortura, venda de armas e munições ilegais, crimes eleitorais, lavagem de dinheiro, violência doméstica e outros, inclusive envolvendo coronéis do Alto Comando e outros oficiais da Casa Civil.
Enquanto segue a impunidade, arranhando a imagem e a credibilidade da Instituição, ao mesmo tempo o Comando da PM abre investigações imediatas contra policiais militares por fazem críticas sobre a forma que a instituição é conduzida politicamente e por cobrarem melhores condições de trabalho e melhorias salariais para uma tropa com 12 anos sem reajuste salarial. Essa conta não fecha.
Não é à toa que os bandidos não se intimidam ao agirem executando suas vítimas a qualquer hora do dia e da noite, inclusive em vias públicas movimentadas, além de se sentirem à vontade para uma selfie exaltando facção criminosa usando como espaço instagramável as viaturas policiais que servem de vitrine no entorno do Palácio do Governo.
*Por Jessé Souza
