Efeito Hélio Negão-Padre Kelmon e o discurso de Roraima como ‘terra de oportunidade’

Hélio Negão transferiu domicílio eleitoral e Padre Kelmon já tentou se fixar em Roraima (Fotos: Divulgação)

Durante as décadas de 1970 e 1980, eram tradicionais os desfiles cívicos de 7 de Setembro (Dia da Pátria) e 13 de Setembro (aniversário de criação do Território Federal). Nesses eventos públicos festivos, os políticos gostavam de hastear um cartaz com os dizeres “Terra de Oportunidade”, como mantra de que Roraima tinha tudo para dar certo e se desenvolver em um futuro bem próximo.

O relógio do tempo andou, Roraima foi elevado a Estado e continuamos até aqui com os mesmos discursos de tempos fartos em que o dinheiro federal chegava a rodo para os chamados “governadores biônicos”, indicados por Brasília. Mas o discurso de antigamente não passou disso mesmo: discurso. E descobriu-se que não se tratava de oportunidade, mas de uma terra de oportunistas na política partidária.

Na política atual, o oportunismo é o movimento mais explicito possível, em que o personagem mais proeminente é o deputado federal pelo Rio de Janeiro Hélio Lopes (PL), mais conhecido como Hélio Negão, um militar da reserva que está no segundo mandato e já contabiliza a possibilidade de não mais se reeleger depois de o personagem “papagaio de pirata” de Bolsonaro ter chegado ao limite do desgaste.

Mesmo sem qualquer vínculo ou proximidade com a realidade de Roraima, Hélio Negão transferiu seu título eleitoral para o Estado e decidiu disputar o Senado por Roraima, sem consultar lideranças locais e muito menos sem levar em consideração o povo roraimense, sobre o qual o pensamento fixo é uma suposta ou provável facilidade de arrebanhar 15 mil votos em um Estado dominado pelo bolsonarismo.

Mas Hélio Negão não foi o primeiro a pensar e agir assim. Antes dele, o ex-candidato a presidente escalado para fazer escada para o bolsonarismo nos debates eleitorais, Padre Kelmon, começou a frequentar Roraima com nítidas intenções de se fixar visando as eleições, mesmo sem qualquer conhecimento sobre a realidade local. No entanto, ao menos ele tentou pavimentar essa estrada com antecedência, ainda que sem sucesso.

Mas Hélio Negão e Padre Kelmo não se diferenciam do oportunismo político já demonstrado por outros políticos da mesma estirpe, que se mudaram de seus estados de origem para se lançarem candidatos em outros estados, que são transformados em novas colônias eleitorais em que candidaturas abrem trilhas do oportunismo eleitoral sem a necessidade de ter uma história ou mesmo sentimento por aquele lugar.

Ao tratar a mudança de domicílio eleitoral como estratégia fria e calculista para se manter no poder, essas figuras ainda pensam da mesma forma que os antigos colonizadores que chegavam ao Brasil, com espelhos e bugigangas, apostando na inocência ou na ignorância de um povo colonizado e escravizado. Os novos colonizadores eleitorais tratam os roraimenses como tivessem o nariz com os buracos virados para cima e que podem morrer afogados na primeira chuva.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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