A voz de uma major dentro do ambiente dominado pela machosfera precisa ser enaltecida

PMs reclamam de defasagem salarial e de favorecimento político nas promoções (Foto: Divulgação)

A data da celebração foi dia 8, neste domingo, mas o mês de março é todo dedicado às mulheres, tanto no que diz respeito ao reconhecimento do papel delas na sociedade como também sobre a violência praticada contra as mulheres. Um nome que precisa ser lembrado dentro de todo esse contexto é o da major da Polícia Militar de Roraima Adriane Severo, que ousou a ter voz altiva dentro de um ambiente dominado pela machosfera.

Para quem não lembra, a major Adriane foi aquela que, no dia do aniversário de 80 anos da PM, em novembro de 2025, gravou um vídeo que expos o sentimento da maioria dos policiais militares que não vivem de favorecimento político partidário para conquistar promoções, trabalham há quase 12 anos com salário defasado e vivem sobrecarregados por escalas abusivas para que estejam presentes em eventos políticos e no apoio às recorrentes operações policiais, sem condições para trabalhar cumprindo suas missões no policiamento ostensivo,

O posicionamento dela é importante não apenas pela atitude tomada dentro de uma instituição dominada pelo machismo e onde é proibido criticar, sob ameaça de procedimentos administrativos, como ocorreu com a major. Mas porque Roraima é o Estado onde a violência contra a mulher é sistêmica e, por isso, a Segurança Pública precisa ser prioridade; e a prioridade começa com salários dignos e boas condições de trabalho para os policiais, o que não ocorre com a PM.

Enquanto policiais trabalham sob a insatisfação provocada pela desvalorização profissional, em que é necessária a bajulação partidária para receber promoção, Roraima é o Estado que possui mais elevada taxas de crimes contra as mulheres (homicídio, estupro, violência psicológica e perseguição), todos acima da média nacional, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Sem profissionais valorizados na polícia ostensiva, não há como haver uma política de governo de combate à violência contra a mulher.

Os números que mostram que Roraima é um lugar perigoso para as mulheres podem ser analisados também pelas estatísticas da Promotoria de Justiça de Defesa da Mulher do Ministério Público do Estado de Roraima (MPRR), que de janeiro de 2025 a março de 2026 realizou 2.605 atendimentos a mulheres vítimas de violência doméstica. No período, foram ajuizadas 1.349 denúncias contra autores de violência e apresentadas 22.158 manifestações em processos judiciais, além de instaurado 532 procedimentos extrajudiciais relacionados à violência contra mulheres.

Obviamente que a questão da violência contra as mulheres vai muito além de uma PM bem estruturada e com policiais valorizados, que envolve ações individuais e coletivas, com apoio às vítimas e a promoção de uma cultura de respeito e igualdade. No entanto, um dos pontos principais é denunciar a violência, que é a primeira e mais importante ação, o que indica a importância da PM e da Delegacia de Defesa da Mulher dentro da estrutura para enfrentar todas as formas de violência.

Aqui entra também o desafio da Segurança Pública no combate ao crime organizado, em que a PM precisa ter profissionais qualificados, com estrutura adequada e principalmente valorizados por meio de salários dignos. Da forma que a realidade se apresenta, a violência contra a mulher torna-se mais um fardo para uma instituição que não consegue sequer resolver seus problemas e conflitos internos. E a atitude da major Adriane representa essa voz altiva que precisa ser reconhecida para que se possa mudar essa realidade.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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