
Não se trata apenas de conversações políticas. Há um projeto de poder acima de tudo e de todos, cujo processo é a pavimentação para deixar familiares e amigos bem colocados na vida pública. A decisão do senador Mecias de Jesus de assumir a vaga de conselheiro para a qual foi indicado no Tribunal de Contas do Estado (TCE) é a mais alta expressão de tudo isso.
Em ótimas condições mentais, ninguém hesita em aceitar um cargo vitalício longe dos pedintes de gabinetes e do jogo sujo das traições políticas. A não ser que haja algo bem maior em jogo, como mais poder em mãos e condições de abrir o imenso guarda-chuva político a fim de abrigar cabos eleitorais de linha de frente, aliados, assessores e familiares.
Eleito com o discurso de não-político, o governador Antonio Denarium não pestanejou na primeira chance de garantir um cargo vitalício para esposa no TCE, inclusive atropelando a vaga que era da Assembleia Legislativa de Roraima, garantindo para a mulher uma aposentadoria certa sem ameaças de revés político partidário. E haverá revezes quando ele estiver sem a caneta na mão e sentindo os efeitos da sentença de “rei morto, rei posto”.
Aliás, a dinâmica da pré-campanha está toda baseada entre avançar, recuar ou encaminhar as esposas para um mandato eletivo, dentro de um projeto político a fim de manter ou ampliar influência política por meio da participação de familiares com a proposta de manter a dinastia política. E sempre foi assim.
Importante deixar bem claro que não há um projeto de poder sem negociações com quem está no poder, cujas tratativas entram o comando de secretarias e estatais ou cargos comissionados loteados em vários órgãos públicos, além de contratos de empresas de familiares e aliados. Há um termo muito usado nessas negociações, que é “entregar uma secretaria de porteira fechada”, ou seja, todo o comando de nomeações e contratações.
No caso de Mecias, inclusive ele já havia garantido o filho, o ex-deputado federal Jhonatan de Jesus, como ministro do Tribunal de Contas da União (TCU). E o discurso de despedida de Mecias aos “amigos e aliados de primeira hora”, ao anunciar que irá mesmo para o TCE, é um exemplo do que é a política. Disse que, no cargo de conselheiro, continuará apoiando seus aliados.
Como não poderia ser diferente, após ter sido vereador de São João da Baliza, deputado estadual de seis mandatos, entre os quais foi presidente da Assembleia Legislativa por quatro vezes, e senador por sete anos, Mecias tem planos de manter o espólio político lançando a esposa a um cargo eletivo nessas eleições, apostando na perpetuação da família no poder.
Enquanto tudo isso ocorre, a política em Roraima pode ser resumida nas ações da Polícia Federal no Estado no combate a todos os tipos de desmandos, especialmente corrupção e crime organizado. As operações policiais só crescem a cada ano em um Estado de maioria conservadora e de direita: em 2021, a média foi de 20 operações, saltando para 25 em 2022, aumentando para 34 em 2023 e totalizando 67 operações no ano de 2024. Nesse ano de 2026, já somam 30 prisões só no primeiro bimestre.
Os números falam muito sobre a realidade de Roraima.
*Colunista
