Episódio no banheiro da escola e os dados que não podem ser ignorados, normalizados ou minimizados

O caso da adolescente de 16 anos, vítima de uma tentativa de estupro no banheiro da Escola Estadual Vanda da Silva Pinto, no bairro Santo Luzia, precisa de uma reflexão dentro de um contexto maior, especialmente por estarmos no mês dedicado à mulher. O fato ocorreu na terça-feira, 10, envolvendo quatro colegas de turma da vítima, com idades entre 14 e 16 anos, chamando a atenção pela pouca repercussão do caso diante do que está ocorrendo.

O que chama a atenção é que o grave episódio ocorre no momento em que o país vive a repercussão do caso do Rio de Janeiro, em que quatro jovens e um adolescente são acusados de estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos. O crime o ocorreu na noite de 31 de janeiro de 2026, quando a vítima foi atraída para um apartamento em Copacabana por um adolescente, ex-namorado da jovem, sob o pretexto de um encontro romântico.

O momento se reveste de outra não menos preocupante situação. A Polícia Federal e a Advocacia-Geral da União (AGU) começaram a investigar a trend que circulou nas redes sociais, em que vídeos gravados por jovens e adolescentes simulam reações agressivas contra mulheres após recusa de pedido de namoro, noivado ou casamento. Chamada de trend “Treinando caso ela diga não”, homens simulam socos, chutes e facadas em casos de recusa em relacionamentos.

Para piorar a tenebrosa realidade, as notícias sobre o Dia Internacional da Mulher apontam Roraima liderando casos de estupros de vulneráveis, encabeçando a lista dos 16 estados que apresentaram taxas de estupro e estupro de vulnerável superiores à média nacional de 41,2 casos por 100 mil habitantes. O Estado também é campeão em tentativa de estupro,  encabeçando a lista dos 14 estados que registraram taxas acima da média nacional (2,9 casos por 100 mil habitantes). As roraimenses ainda são as maiores vítimas de crime de perseguição, mais conhecido como stalking.

Diante do que ocorreu na Escola Estadual Vanda da Silva Pinto, é oportuno questionar o motivo pelo qual as escolas em Roraima não escolhem um momento para discutir essa realidade, da mesma forma que escolhem datas para festa junina, por exemplo. Não seria hora de os educadores, legisladores e autoridades de uma forma geral começarem a notar que a violência contra a mulher precisa ser discutida nas escolas desde a infância?

Pelo que está ocorrendo no país, é possível afirmar que existe uma cultura que influencia o estupro de mulheres. Para contextualizar, o termo cultura do estupro surgiu pela ação de feministas, na década de 1970, que apontou que a sociedade frequentemente culpa as vítimas pelos assédios e estupros, perpetuando a objetificação das mulheres e a aceitação da violência sexual, normalizando e minimizando a violência sexual na sociedade.

O momento é oportuno para discutir o grade fosso que existe entre realidade e busca de soluções. O que ocorreu na Escola Vanda Pinto não pode ser normalizado, minimizado ou esquecido. As estatísticas também não podem ser ignoradas. É preciso fazer algo de verdade em vez de apenas discussão em datas celebrativas e matérias em jornal.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

Deixe um comentário