
Há cerca de duas décadas a população de Rorainópolis, município que é a porta de entrada de Roraima na região Sul, na divisa com o Amazonas, já vinha pedindo socorro para a criminalidade que foi se instalando aos poucos na região, sob a negligência das autoridades. Com arranjos e remendos na Segurança Pública, a realidade chegou aos dias atuais, com crimes de grande repercussão e que culminaram com as duas grandes operações realizadas nos últimos dias naquela localidade.
Rorainópolis é o resumo do que ocorre quando o crime se organiza no vácuo do poder público, com o avanço do garimpo ilegal, narcotráfico, desmatamento e grilagem de terra, com reflexos também no surgimento de trabalho escravo nas grandes fazendas. Cercada por todo tipo de ilegalidades, a população urbana fica refém da criminalidade advinda dessas práticas ilegais, com a intensificação do tráfico de droga no varejo, que abre portas para roubos e furtos, além de assassinatos.
Com a cidade assolada pelo crime, a escalada da violência chegou ao cume em maio de 2024, quando outros dois brutais crimes ocorreram: um na noite do dia 4 daquele mês, quando uma adolescente de 17 anos foi vítima de feminicídio, cujo acusado é um policial militar; e um empresário foi executado no dia 21 em frente ao seu estabelecimento comercial, à luz do dia, em pleno horário comercial. Ambos foram mortos com três tiros.
A situação chegou ao nível insustentável, a ponto de as autoridades se sentirem obrigadas a agir. Foi assim que, em dezembro daquele ano, durante 45 dias, uma operação integrada foi realizada pelas polícias Civil e Militar, em conjunto com a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco), a qual é composta também pela Polícia Federal, o que resultou na prisão de 23 pessoas e na desarticulação de cinco bocas de fumo, com ações na sede de Rorainópolis, nas vilas Nova Colina e do Jundiá.
Mas o crime já havia se organizado e a situação ficou fora do controle. A realidade não surgiu do dia para a noite. No início dos anos 2010, as autoridades já sabiam da presença das duas grandes facções nacionais em Roraima, que se estabeleceram a partir do sistema prisional. Os bandidos sentiram-se à vontade para agir quando ocorreu a associação entre a facção Família do Norte (FdN) e Comando Vermelho (CV), ocorrida em 2014, no Amazonas, com porta de entrada a partir de Rorainópolis, sob a negligência do poder público.
Foi um passo para essas facções transitarem por outros territórios ilegais, como o garimpo na Terra Indígena Yanomami, em que Rorainópolis tem inúmeras pistas de pousos clandestinas em fazendas onde a polícia nunca chega, por onde já transitava o narcotráfico; e na extração de madeira, que é a atividade econômica principal em Rorainópolis. Embora 60% da atividade madeireira seja legalizada na região, com projetos de manejo sustentável, a exploração ilegal é muito alta, com até 40% das áreas na ilegalidade, entre assentamentos rurais, imóveis rurais privados, terras indígenas e áreas de conservação ambiental.
E assim que o Sul do Estado passou a ser dominado pelo crime organizado em várias frentes, com a cidade de Rorainópolis tornando-se a porta de entrada para todos os tipos de crimes, ficando a população ilhada e sem ter forças para pedir socorro. A polícia chegou novamente este ano, com operações nos últimos dias, motivada depois do brutal assassinato de um casal, cujos corpos foram encontrados carbonizados dentro de um carro em dezembro de 2025, indicando uma ação do mesmo crime organizado que explora não só o tráfico e outros crimes, como também a agiotagem.
Quem vai lembrar disso nas eleições?
*Por Jessé Souza
