Espetacularização do prende-e-solta do heroísmo isolado e as raízes dos grandes males  

Roraima vem liderando em homicídios dolosos e latrocínio nos últimos anos (Imagem: Reprodução)

Enquanto a população é submetida à ilusão midiática por meio das redes sociais com a espetacularização de prisão de bandidos na periferia, passando a sensação de que o crime está sendo combatido principalmente por “policiais heróis”, o núcleo do crime organizado continua intacto e os policiais militares da vida cotidiana, longe dos holofotes, seguem pedindo o básico: condições salariais dignas.

O discurso que alimenta essa ilusão tem o discurso pronto: “A gente prende, mas a Justiça solta”. De fato, a sentença não deixa de ser verdadeira. Mas o que muitos não conseguem compreender é que há uma encenação muito forte que faz com que ações isoladas de ações operacionais do prende-e-solta sejam hiper enaltecidas propositalmente, enquanto as autoridades se escondem atrás dessas nuvens midiáticas diante do crime bem estruturado no Estado.

Não se trata de uma realidade nova, surgida a partir das redes sociais. Seguidos estudos vêm apontando a distância entre prática e realidade na Segurança Pública. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) já apontava, em 2023, em seu documento “Dinâmica da Violência Relatório Roraima”, com base em dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que Roraima vem liderando em homicídios dolosos e latrocínio, além de ser disparado o Estado onde mais se violenta mulheres, com índices alarmantes de estupros e estupro de vulneráveis.

Toda essa preocupante realidade acaba sendo escondida pela proposital exploração de divulgações nas redes sociais do que pode ser chamado de heroísmo imediato de policiais operacionais prendedores de bandidos de baixo escalão, na periferia, enquanto os cabeças do alto escalão do crime organizado seguem incólumes e sem rosto na sociedade, pois a polícia não chega neles e as investigações são travadas quando os indícios apontam gabinetes e escritórios intocáveis em áreas nobres.

A fonte dessas informações não são “vozes da cabeça de alguém”. O próprio relatório do Ipea apontou em Roraima “a institucionalidade ainda precária da política de Segurança Pública, que acaba inclusive sujeita a interferências de outros interesses”. Esses “outros interesses” são aqueles inconfessáveis e outros nem tanto assim, como foi o caso da infiltração de milicianos nos poderes constituídos, cujas investigações seguem travadas.

O Ipea concluiu, em seu relatório ainda de 2023 sobre a realidade de Roraima: “O fato de que muitas das dinâmicas criminais que estão por trás dos indicadores de violência no Estado, como o narcotráfico, o garimpo ilegal, o desmatamento ou a grilagem de terras, contam com o apoio (se não o envolvimento direto) de políticos locais e agentes estatais representa desafio adicional de difícil transposição”.

Aqui está a raiz de todos os males e o motivo pelo qual a encenação do espetáculo midiático do prende-e-solta nos bairros periféricos é usada para lançar espessas nuvens sobre a insegurança pública que reina no Estado, enquanto os políticos estão ocupados com intensas tratativas para saber quem serão os candidatos nas eleições 2026.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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