
A operação da Polícia Federal realizada nesta segunda-feira, 6, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, serve para mostrar a força do garimpo ilegal que se instalou no entorno das comunidades indígenas do Município de Normandia. A ação foi uma resposta às ações intimidatórias contra agentes federais praticadas por indígenas que apoiam as atividades ilegais de garimpagem na região e por membros de grupos criminosos que atuam por lá.
Em maio passado, indígenas armados com arco e flecha, além de arma de fogo, perseguiram cinco viaturas da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) que realizavam uma operação que resultou na desarticulação de uma estrutura de mineração ilegal que utilizava substâncias tóxicas altamente perigosas, como cianeto e mercúrio, na Comunidade Napoleão.
Um mês antes, em abril, um grupo armado invadiu uma área de garimpo na mesma comunidade indígena, onde os elementos chegaram atirando e agredindo pessoas, inclusive levaram dois veículos, os quais foram incendiados posteriormente, mostrando uma possível atuação do crime organizado que aos poucos começou a se instalar nas terras indígenas em possível acerto de conta.
A Operação Heisenberg, deflagrada nesta segunda-feira pela PF, mostrou que os mantenedores do garimpo ilegal não se intimidam, pois desta vez foram apreendidos 3,7 kg de ouro, 17 carotes de produtos químicos, arma de fogo motores, e outros equipamentos utilizados na garimpagem. A cada operação policial, os garimpeiros se organizam novamente, inclusive indígenas servidores públicos que se submetem a empréstimo bancários para adquirir novos equipamentos para a extração de minérios.
As primeiras denúncias da ação do garimpo ilegal em Normandia foram feitas por lideranças indígenas em março de 2021, quando pelo menos mil pessoas ocupavam três áreas de garimpo com barracões cobertos com lonas na Serra do Atola, na Comunidade Indígena Raposa II. A demora das autoridades federais para agir permitiu o avanço do garimpo nas comunidades Raposa I, Raposa II, Napoleão e Tarame, cujas atividades ilegais se fortaleceram com estrutura patrocinada por empresários, políticos e garimpeiros vindos da Guiana.
A evolução dessa atividade não se trata apenas do crescimento da criminalidade, desestruturação das comunidades indígenas e chegada do crime organizado na Raposa Serra do Sol, assim como ocorreu na Terra Yanomami. Há graves riscos ambientais e humanos, pois aquela região é formada por igarapés e vários lagos ao redor das inúmeras comunidades indígenas, o que representa sérios riscos de contaminação por cianeto e mercúrio, que ameaçam não só o meio ambiente, mas também a saúde dos povos indígenas.
Um desses locais que está sob ameaça de contaminação é o Lago Caracaranã, que é essencial para as comunidades indígenas, além de conhecido por sua beleza cênica e potencial turístico. As chuvas podem levar resíduos tóxicos para os lagos que ficam próximos. Se o garimpo não for freado, o meio ambiente será fatalmente golpeado, com o Caracaranã na lista de riscos.
Afinal, a violência já é uma realidade na região, inclusive com registro de mortes, ameaças a lideranças indígenas, aliciamento de jovens indígenas, tráfico de droga e, por último, ataques a agentes federais.
*Colunista
