
Após anos as autoridades escondendo a real situação que levou à precária situação da RR-203, no Município de Amajari, a verdade veio à tona. Uma auditoria realizada pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) apontou falhas na elaboração do projeto básico e superfaturamento de 24,62% nos valores pagos indevidamente para o transporte do asfalto destinada à obra de conservação da RR-203, valores estes que tiveram que ser devolvidos pela empresa.
A auditoria entrou no Plano Anual de Fiscalização de 2020 e de 2021 do TCE, que examinou a regularidade da licitação e execução do contrato de conservação e manutenção da RR-203, com extensão total de 105,44 km, cujo alvo do processo 021601.001152/20-10 foi a Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinf). Mesmo com a devolução dos valores pago a mais, indevidamente, os responsáveis pelas irregularidades foram multados.
O titular da pasta, à época, era Edilson Damião, que de secretário de Infraestrutura passou a vice-governador e, este ano, assumiu como governador, com apenas um mês de mandato até ser cassado, cujo desenrolar de todos os fatos desembocou na eleição suplementar, em que os desdobramentos são de conhecimento de todos.
Enquanto tudo isso ocorria na política roraimense, a situação da RR-203 se degradava ao longo dos anos devido às obras de péssima qualidade, com seguidas e longas paralisações dos serviços, até chegar ao abandono completo. Essa rodovia estadual interliga todo o Município do Amajari, do entroncamento com o Km 100 do trecho norte da BR-174 até a Serra do Tepequém, o principal ponto turístico consolidado de Roraima. Por ser o único acesso ao município, essa rodovia impacta a vida de todos.
Uma nova obra de restauração está sendo feita novamente. No entanto, os anos de descaso com a rodovia ainda seguem provocando transtornos, prejuízos e riscos à vida não só de turistas que buscam a Serra do Tepequém, mas também de moradores de comunidades indígenas, famílias dos assentamentos, pecuaristas, agricultores e o maior piscicultor do país, que cria tambaqui em cativeiro às margens da RR-203.
Mas não é só isso que precisa ser lembrado na conexão com as irregularidades constatadas pelo TCE nas obras da RR-203. É preciso lembrar que o mesmo ex-secretário, ex-vice-governador e ex-governador foi citado em outros casos. Um deles em abril deste ano, quando a Polícia Federal apreendeu uma mochila recheada de dinheiro na saída de uma agência do Banco do Brasil.
As investigações foram iniciadas em janeiro desse ano quando a PF prendeu um empresário, junto com uma assistente administrativa e um policial militar em Boa Vista, suspeitos de lavagem de dinheiro. Mensagens, prints e áudios extraídos de um celular, pela PF, ligaram o então governador Damião a um suposto esquema de fraudes em licitações e desvio de dinheiro público na Seinf.
Mais recente, em junho passado, outro caso ganhou ampla repercussão: o sumiço de R$ 7,6 milhões em espécie atribuídos ao ex-governador, que terminou no registro de Boletim de Ocorrência por um ex-assessor de Damião sobre ameaças, coação e perda de patrimônio. O caso iniciou em 8 de março de 2026, quando o ex-assessor afirma ter constatado um arrombamento no imóvel localizado em Boa Vista, onde o dinheiro estaria guardado e que fora furtado.
Os casos estão aí para serem digeridos pela opinião pública. Enquanto isso, a rodovia do turismo, do tambaqui e do gado segue na buraqueira, com pontes de madeira caindo aos pedaços, além de outras mazelas que se repetem em outras estradas e vicinais por todo interior de Roraima.
*Por Jessé Souza
