
A única capital brasileira acima da Linha do Equador, Boa Vista celebra 136 anos de criação nesse 9 de julho. Além das suas conhecidas potencialidades dentro do contexto amazônico e nacional, bem como a forte identidade visual e o franco desenvolvimento de políticas públicas nos últimos anos, sempre é necessário avaliar os desafios para que a população e as autoridades possam enfrentar as pressões típicas de uma cidade com crescimento urbano acelerado e com recursos limitados.
Os principais desafios partem do rápido crescimento urbano devido à crise migratória venezuelana desde 2018 e o recente aumento do deslocamento de cubanos e haitianos, que pressionam as políticas públicas diante de limitações orçamentárias, infraestrutura básica, meio ambiente e serviços públicos. Por ser uma Capital que abriga 65,59% da população do Estado (470.169 habitantes), onde está concentrada toda estrutura de tomada de decisão, Boa Vista é considerada uma cidade-Estado.
Essa realidade exige que nossas lideranças estejam atentas para tomadas de decisões rápidas pensando no futuro muito próximo, mas entendendo o presente, que coloca a Capital como ponto de entrada e acolhimento de migrantes e refugiados, o que faz com que os impactos sejam sentidos na sobrecarga dos serviços de saúde e educação, além da superlotação de abrigos que não tendem mais à demanda, que por sua vez geram aumento da demanda por moradia, alimentação e assistência social.
Diante da vulnerabilidade de muitos migrantes, especialmente venezuelanos, surgiram moradias precárias em áreas de invasão, de onde partem outras necessidades, além do fortalecimento de políticas habitacionais, como também planejamento urbano, garantia de qualidade de vida, proteção ao meio ambiente e a integração desses migrantes como novos cidadãos como agentes de direito e necessidades de políticas públicas.
Embora a Operação Acolhida seja mantida com recursos federais e ajuda humanitária internacional, o Município de Boa Vista é impactado em seu orçamento próprio no sistema de saúde, que exige atendimentos emergenciais e em maior número; na educação, com aumento da demanda por matrícula de crianças, barreiras de idioma que pressionam os educadores e a evasão escolar que desafiam os gestores; e na segurança, com o avanço da criminalidade a partir de facções venezuelanas que chegaram junto com a migração em massa.
Na questão da infraestrutura urbana, com a expansão rápida, os problemas históricos são agravados, como necessidade de mais drenagem, apesar das estatísticas apontarem avanços, com solução de dezenas de pontos críticos e mais quilômetros de drenagem desde 2021. A crise migratória exige que não só as autoridades municipais, mas estaduais e federais, principalmente a bancada federal, direcionem recursos para saúde, educação, habitação, saneamento básico e pavimentação.
Os 136 anos de Boa Vista precisam ser celebrados pelos avanços alcançados até aqui, como uma cidade que surgiu planejada, com avanços em drenagem, pavimentação, construção de escolas e Unidades Básicas de Saúde (UBS), com qualidade de vida relativamente boa para padrões regionais, bem como praças e parques bem estruturados e arborizados, onde pode-se caminhar e praticar exercícios com segurança, garantindo bem-estar à população.
Mas o crescimento e a migração amplificam os desafios históricos, que precisam estar constantemente na pauta política dos gestores e parlamentares. É a partir desse olhar que Boa Vista tem que ser enxergado para que alcance um futuro promissor e não perca tudo aquilo que festejamos hoje com muito orgulho.
*Por Jessé Suza
