No aniversário de 136 anos de criação de Boa Vista, Capital de Roraima, não é só festa; também é necessário lembrar que a colonização até o surgimento da cidade foi marcada por derramamento de sangue indígena

O Município de Boa Vista foi criado em 09 de julho de 1890, a partir do desmembramento do Município de Moura, no Estado do Amazonas. No final do século XIX, ainda em 1887, era considerado com um acanhado povoado. No entanto, até chegar a esse povoado, ocorreram vários episódios de violência e tentativas de eliminação dos povos indígenas, fatos que fontes oficiais costumam ocultar.
Para entender o que ocorreu, em resumo, a história da ocupação de Roraima pode ser dividida em quatro períodos: de 1750 a 1800; de 1800 a 1890; de 1891 a 1943; e a partir de 1943. Foi no período de 1750 a 1800 que os colonizadores tentaram como política de ocupação do Vale do Rio Branco o aldeamento dos indígenas.
Um desses aldeamentos foi o de Nossa Senhora do Carmo, que deu origem a uma fazenda, que se tornou uma freguesia e, mais tarde, a cidade de Boa Vista. O aldeamento foi fundado inicialmente como capela em 1725, consolidando-se no Século XIX com os franciscanos. Em 1858 tornou-se Freguesia e, em 1890, Município de Boa Vista do Rio Branco.
Os primeiros colonizadores a penetrarem no Rio Branco foram Francisco Ferreira e frei Jerônimo Coelho com a missão de aprisionar indígenas e recolher tartarugas e seus ovos para fazer a manteiga que servia como combustível na iluminação pública da cidade de Belém do Pará, para onde os indígenas aprisionados eram levados como escravos.
Nessa época, outros expedicionários subiram o Rio Branco com propósitos semelhantes, entre eles Lourenço Belfort e Cristóvão Aires Botelho. Em 1741, o governo português enviou a primeira tropa de “resgate” (captura de indígenas) comandada por José Miguel Aires que tinha a missão de fazer os povos indígenas a respeitarem a autoridade portuguesa na região.
Conforme fontes históricas, as regras do colonizador para esses aldeamentos eram duras e injustas com os povos indígenas que habitavam toda a região, que não estavam acostumados a viver desse modo. Por causa da privação de liberdade e de outras imposições violentas, os indígenas se revoltaram.
O acontecimento mais perturbador ocorreu em 1790, no episódio que entrou para a História como a Revolta da Praia do Sangue, quando os indígenas enfrentaram os portugueses e foram derrotados. Os que fugiram foram feitos prisioneiros, inclusive o líder indígena Parauijamari, que foi executado para servir de exemplo. Devido a essa barbárie, as águas do Rio Branco foram tingidas de vermelho com o sangue indígena.
A notícia dessa revolta correu entre os vilarejos. Não satisfeito, o governador da Província, João Pereira Caldas, sediado em Belém do Pará, resolveu declarar guerra aos indígenas. Os capturados recebiam como punição uma marca a ferro quente.
Quando a notícia chegou a Portugal, a Coroa portuguesa resolveu trocar o governador e conceder anistia. Em 1794, ao som dos tambores, o perdão foi anunciado aos insurretos do Rio Branco na praça principal de Barcelos, no Amazonas, e afixado no Forte São Joaquim do Rio Branco.
Queçoene que se tornou o Rio Branco que conhecemos
O aldeamento que deu origem a Boa Vista foi estabelecido na margem direita do Rio Branco, nome este oficializado pelo colonizador português Pedro Teixeira, em 1639, quando navegava de Belém para Quito pelo Rio Solimões, próximo do encontro das águas dos rios Solimões e Negro.
Teixeira deparou-se com um grupo de indígenas que diziam ter vindo de um rio de águas brancas que existia no Alto Rio Negro. Ele chamou então de “Branco” esse rio, o qual os indígenas denominavam Queçoene ou Queçovene.
Chegada do gado e dos primeiros migrantes ao povoado no Rio Branco

No período de 1800 a 1890, prosseguiu a opressão dos povos indígenas pelos colonizadores. E foi marcado pela iniciativa de Manoel da Gama Lobo d’Almada de introduzir o gado nos campos naturais, o que atraiu brasileiros de outras regiões do País.
Os nordestinos acossados pela seca de 1877 vieram aventurar-se nas terras do Rio Branco. Esses novos habitantes dedicaram-se principalmente à pecuária, mas se limitavam a criar o gado solto no campo, nas terras que julgavam devolutas.
Como os colonizadores não tinham mão-de-obra que bastasse e suas fazendas não eram autossuficientes, então dependiam dos indígenas para as lides do campo e para a complementação alimentar. Trocavam com eles carne de boi por farinha de mandioca.
Os indígenas, por sua vez, logo se tornaram vaqueiros de rara habilidade, embora até então desconhecessem o gado bovino. O gado criado solto no Rio Branco era vendido em Manaus (AM) e transportado por via fluvial durante o inverno.
Havia uma espécie de escambo: os fazendeiros recebiam dos “aviadores” de Manaus as mercadorias de que necessitavam para sua manutenção anual e pagavam com boi. O transporte entre Manaus e os portos de embarque próximos às fazendas era feito por “batelões” acoplados a rebocadores conhecidos como “motores de linha”.
Decadência do Forte São Joaquim e a Fazenda Boa Vista

Dessa época para frente, o Forte São Joaquim entrou em decadência, e dos povoados antigos apenas o de Nossa Senhora do Carmo sobreviveu. Neste lugar o capitão Inácio Lopes de Magalhães, ex-comandante do Forte, criou a Fazenda Boa Vista, que cresceu e se modificou, dando origem à cidade de Boa Vista. Por essa razão o capitão Inácio Lopes de Magalhães é considerado o fundador de Boa Vista.
Boa Vista dividida em distritos e a nomeação do primeiro superintendente
O período entre 1891 e 1943 assistiu ao florescimento do Município de Boa Vista do Rio Branco, criado em 9 de julho de 1890 por ato do governador do Amazonas Augusto Ximeno de Ville Roy. Com a criação do município, a governança local passou a ser exercida por um superintendente, que na época desempenhava o papel de prefeito da atualidade.
O primeiro a ser nomeado como superintendente foi João Capistrano da Silva Mota que, embora fosse sargento da Guarda Nacional, ficou conhecido como “Coronel Mota”, que deu ao nome a um dos hospitais mais antigos de Boa Vista, o Hospital Coronel Mota.
Ainda em 1938, o nome original de Boa Vista do Rio Branco foi simplificado para apenas Boa Vista, por força de Lei Estadual amazonense, que estabeleceu uma nova divisão administrativa e judiciária para o Estado e dividiu o município em três distritos: Boa Vista, Caracaraí e Murupu. Nesse período, Boa Vista dependia unicamente do gado que produzia.
Planejamento de Boa Vista a partir da criação do Território
Em 1943, por uma decisão do presidente Getúlio Vargas, foi criado o Território Federal do Rio Branco. Ele seguiu conselhos de várias pessoas, entre elas o naturalista norte-americano Louis Agassis que, depois de percorrer as terras banhadas pelo Rio Amazonas, sugeriu seguir o modelo dos Estados Unidos, com as províncias sendo transformados em territórios que seriam embriões dos Estados, o que estimularia o desenvolvimento dessas regiões sem embaraçar a ação do Governo Central.
O governador era nomeado pelo presidente da República, e este nomeava o prefeito da única cidade e Capital, Boa Vista. O primeiro a governar Roraima foi o capitão de cavalaria Ene Garcez dos Reis, responsável pela implantação do Território Federal e pela condução dos primeiros passos do novo ente federativo.
Um dos trabalhos mais significativos do primeiro governador, Ene Garcez, foi a contratação do engenheiro Darci Deregusson para o planejamento urbano da cidade de Boa Vista. Naquela época a cidade tinha apenas cinco ruas, sendo duas paralelas ao Rio Branco (Avenida Floriano Peixoto e rua Bento Brasil) e três transversais (ruas Jaime Brasil, Inácio Magalhães e José Magalhães).
O primeiro lugar de trabalho do governador foi a Prelazia do Rio Branco, uma espécie de mosteiro de beneditinos que, à época, era o único prédio digno construído em alvenaria na cidade.
Traçado da cidade em forma de leque tornou-se uma identidade visual

O engenheiro Darcy Aleixo Derenusson, autor do projeto urbanístico da “nova Boa Vista”, realizou um detalhado planejamento urbanístico para Boa Vista entre 1944 e 1946.
O projeto era arrojado para a época, contemplando topografia, projeto de edificações, esgotamento sanitário, galerias para escoamento de águas pluviais, abastecimento de água potável, fornecimento de energia elétrica e toda a infraestrutura até então inexistente para atender às necessidades de um centro urbano moderno.
Com o planejamento da década de 1940 mantido na área central de Boa Vista até os dias atuais, o traçado urbano organizado de forma radial lembra um leque, imagem pela qual a Capital roraimense ficou conhecida, uma identidade visual.
As principais avenidas do Centro convergem para a Praça do Centro Cívico Joaquim Nabuco, que é o centro geográfico da cidade, onde se concentram as sedes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além do Palácio da Cultura, hoteis, bancos, Correios e a Catedral Cristo Redentor.
Fontes: *Guia Turístico Roraima, Editare Editora Ltda., 2009 guia-turistico-rr.pdf
*Fotos: O Valle do Rio Braco, Estado do Amazonas – Edição Official 1906
