Quadro nebuloso com práticas antigas e até discurso de ‘animalzinho de zoológico’

Não se vê uma política clara mostrando para onde está caminhando o Estado de Roraima (Imagem: Divulgação)

Os últimos fatos políticos são muito preocupantes em relação ao futuro que se está construindo para o Estado de Roraima. O atual governo, eleito e reeleito tendo como pauta prioritária o agronegócio, não mais que de repente surgiu com uma nova pauta: um empréstimo de quase R$1 bilhão que supostamente irá fazer o Estado se alavancar com surgimento de canteiros de obras e geração de emprego.

O discurso do agronegócio foi perdendo tempero ao mesmo tempo em que se deterioraram a principal rodovia roraimense, a BR-174, e a estrada mais importante para a produção agrícola no Sul de Roraima, a BR-210. Isso sem contar as vicinais. Ou seja, o Estado que se propôs a investir no agronegócio não cuidou sequer de suas principais estradas, as quais são imprescindíveis para a escoação agrícola.

Nem mesmo o maior produtor de pescado da região Norte do país, instalado no Município do Amajari, foi poupado da (des)política de deterioração de estradas, com o trecho norte da BR-174 em condições lastimáveis, além da RR-203, que é a rodovia estadual responsável não apenas pelo transporte para exportação do pescado, mas também que dá acesso ao Turismo na Serra do Tepequém, que é outra indústria que gera emprego e renda no Norte do Estado.  

Ao mesmo tempo em que o discurso foi sendo mudado, de um Estado produtor e que tinha dinheiro em caixa no valor de R$2 bilhões, em outra ponta o governo estadual passou a adotar uma política visivelmente assistencialista, ora distribuindo cesta básica (prática que levou à cassação do governador Antonio Denarium), ora colocando as pessoas na fila da distribuição do peixe e, mais recentemente, distribuindo brinquedos para as crianças, inclusive entregou pipas (papagaio) que estampavam o rosto do próprio governador.

As pessoas parecem ter esquecido do que a política assistencialista foi capaz de provocar em um passado recente, quando todos iam para a fila da buchada e, em seguida, passaram a formar fila nos gabinetes políticos para pedir dinheiro para tudo, da conta de luz à botija de gás. E a cada eleição, todos montavam vigília em frente de suas casas em uma verdadeira feira-livre da venda de votos durante a noite e madrugada.

Por último, uma boa parte da população acabou envolvida no maior esquema de corrupção jamais visto em Roraima, que foi o “esquema gafanhoto”, quando as pessoas eram incluídas na folha de pagamento do governo sem precisar trabalhar. Enquanto isso, os políticos ficavam com a procuração de assessores ou cabos eleitorais para receber os altos salários ou parte deles.

São apenas pinceladas do que o Estado passou lá atrás e que demandou tempo para se recuperar de tudo isso devido às mazelas vividas nas áreas imprescindíveis para o desenvolvimento de Roraima, como educação, saúde e segurança pública, setores afetados severamente, cujos reflexos vivenciamos nos dias atuais.

Assim como no tempo do assistencialismo da buchada, hoje presenciamos  uma migração em massa; a criminalidade mostra sua força com assassinados de execução quase semanalmente; as pessoas estão sendo incentivadas a voltar para a fila do peixe e do brinquedo; falta água constantemente nos bairros; e, para amenizar um problema histórico dos blecautes energéticos, iremos voltar a ser abastecidos de energia elétrica vinda da Venezuela.

Não bastasse tudo isso, ainda teve produtor de soja, em uma inócua audiência na Assembleia Legislativa de Roraima que não dá em nada, repetindo o mesmo discurso de antigamente em defesa do agronegócio, ao classificar as populações indígenas de “animalzinho de zoológico”,  declaração racista que foi repetida insistentemente no passado para justificar o garimpo e o agronegócio. E isso sob o silêncio dos deputados.

Algo muito estranho está em gestação, diante de um Estado que irá ficar endividado por causa de um empréstimo aprovado sem discussão pelos deputados. O momento requer atenção por parte da sociedade, pois os sinais indicam não ser possível enxergar uma política de desenvolvimento de médio e longo prazos. Pior: não sabemos aonde queremos chegar.

Por Jessé Souza (jesseroraima@hotmail.com)

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