Eleição suplementar com cenas repetidas de operações policiais e pacotes de dinheiro

Dinheiro apreendido pela PF às vésperas da eleição em Alto Alegre (Foto: Divulgação/PF)

No mesmo momento em que estava sendo realizada a eleição suplementar em Alto Alegre, neste domingo, para a escolha do prefeito tampão daquele município, a Polícia Federal fazia busca e apreensão no Centro de Atendimento ao Cidadão, órgão estadual que concentra os programas sociais destinados a pessoas de baixa renda, entre eles o Programa Cesta da Família. A finalidade foi apurar suspeita de compra de votos para o candidato governista.

Conforme a PF divulgou logo após ter acesso à lista das pessoas cadastradas no Programa Cesta da Família, ficara evidente que durante o curto período eleitoral em Alto Alegre houve um aumento expressivo no número de cadastros de eleitores para receber cestas básicas e também no abastecimento de cartões magnéticos fornecidos pelo governo, descrita pela PF como “um incremento substancial nos programas assistenciais e projetos” por meio do qual a “compra de votos vem sendo operacionalizada”.

Apoiado maciçamente pelo governador Antonio Denarium, o professor Wagner Nunes (ambos do Republicanos) acabou sendo eleito para cumprir o mandato tampão de prefeito até 31 de dezembro de 2024, ao receber 53,60% dos votos, no total de 4.702, com uma diferença de 632 votos em relação ao adversário. Foi uma eleição que explicitamente mostrou uma presença maciça do governador, aliados políticos e assessores, além de intensa atuação de servidores nas ações sociais.   

O que chama a atenção é que a eleição suplementar só ocorreu porque o prefeito anterior, Pedro Henrique, que apoiou o candidato derrotado neste domingo, foi cassado exatamente por compra de voto por meio de distribuição de cesta básica nas eleições de 2020. E o governador Denarium, que apoiou o candidato que saiu vitorioso, também foi cassado, dentre outras acusações, por ter distribuído cesta básica em uma situação idêntica nas eleições de 2022.

O programa Cesta da Família foi criado em janeiro de 2022 pelo atual governo, após mudança de nome do programa social já existente, quando foi turbinado o número de beneficiários, saltando de 10 mil para 50 mil inscritos durante o ano eleitoral. O programa social havia sido alvo da PF nas eleições municipais de 2020, com apreensão de fichas cadastrais após denúncia de deputados de oposição sobre suspeita de crime eleitoral para beneficiar a candidatura a prefeito apoiado pelo governo. No dia seguinte, a PF apreendeu 10 mil cestas básicas que seriam usadas para a compra de votos.

Como investigações policiais demandam tempo até chegar à mesa dos magistrados para julgamento, que é outra morosidade não menos danosa, o prefeito vai terminar o mandato tampão em Alto Alegre, com essa eleição suplementar – marcada por farta benevolência governamental na concessão de benefícios – ficando tão somente no anedotário político, em que foi colocada em prática a lei da oferta e da procura eleitoral, em que políticos só compram votos porque há interessados em se vender.

E não pode ser esquecido que a semana que antecedeu o dia da eleição suplementar foi marcada por operações da PF, que apreendeu R$50 mil com o segurança do senador Mecias de Jesus em Alto Alegre e, em outra ação, prendeu em Boa Vista um empresário e dois servidores Prefeitura de Bonfim com R$ 462 mil, suspeitos de integrarem um esquema de fraudes em processos licitatórios, cuja investigação não descarta relação direta com a eleição em Alto Alegre.

São cenas bastantes conhecidas em Roraima, durante períodos eleitorais, em que programas sociais são turbinados e maletas com dinheiro vivo, algo que nem chega a surpreender a opinião pública. Como estamos em ano eleitoral, essa eleição em Alto Alegre serviu para mostrar como deverá se desenrolar a campanha eleitoral no Estado, especialmente nos municípios mais distantes da Capital, onde o poder público não costuma chegar com frequência e a fiscalização sempre se mostra ausente.

Apesar de apenas Alto Alegre ter realizado eleição suplementar, isso não foi suficiente para as autoridades mostrarem força a fim de impedir que velhas práticas fossem executadas. A PF não tem força suficiente para sozinha agir no Estado. Então, imagine o que pode ocorrer quando os 15 municípios estiverem em plena campanha eleitoral…

*Por Jessé Souza (jesseroraima@hotmail.com)

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