
Enquanto as atenções das pessoas costumam se voltar para as notícias policialescas – a exemplo da audaciosa ação de um elemento que baleou outro na porta de uma igreja, no bairro 13 de Setembro, em provável acerto de conta entre faccionados venezuelanos -, as informações sobre grandes escândalos na política roraimense passam despercebidas, sem grande repercussão e ao largo das discussões.
Na mesma quarta-feira em que um facionado agia de cara limpa e à luz do dia tentando executar sua vítima, o Ministério Público de Roraima (MPRR) pedia da Justiça a prisão do ex-reitor da Universidade Estadual de Roraima (UERR), Regys Freitas, diante dos indícios de que o grupo investigado, formado por ele, empresários e servidores públicos, estaria destruindo provas oficiais para encobrir esquema de desvio de dinheiro público que chega a R$15 milhões.
Os graves indícios foram apontados pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) que detectou adulterações no Sistema Integrado de Planejamento, Contabilidade e Finanças (Fiplan), onde ficam registrados todos os pagamentos do governo estadual. Os dados financeiros da UERR começaram a ser alterados ou apagados a partir da primeira quinzena de dezembro de 2025. Isso só para se ter uma ideia do tamanho do problema.
A notícia mal foi digerida pela opinião pública e, nesta quinta-feira, o Ministério Público Eleitoral (MPE) ofereceu denúncia contra o presidente da Câmara, vereador Genilson Costa, e o então subcomandante-geral da Polícia Militar (PM), coronel Francisco Lisboa, além de outras 14 pessoas, por participação em um suposto esquema estruturado de compra de votos nas eleições municipais de 2024, por meio de “caixa dois” e outros crimes.
As investigações apontaram que eleitores abordados negociavam seus votos por valores que variavam de R$ 100 a R$ 150, cuja movimentação financeira pode ter ultrapassado R$ 4 milhões, dando pistas de quanto custa a eleição de um vereador e deixando margens para se imaginar ou especular quanto poderá custar a compra de votos para eleger deputados estaduais e federais, além de senador e governador.
Conforme o MPE, a participação do coronel, no cargo de subcomandante-geral da PM, foi decisiva para monitorar as fiscalizações eleitorais. Acusado de violação de sigilo funcional, ele teria acessado o sistema interno “Disk 190”, capturando telas do sistema com registros de denúncias e as encaminhando ao vereador que concorria à reeleição, repassando informações necessárias que permitiam que o grupo se antecipasse e adotasse medidas para evitar flagrantes de crimes eleitorais.
Esse não é o único caso envolvendo o vereador. Em abril de 2022, Genilson Costa foi um dos alvos de uma operação deflagrada pela Polícia Federal que investiga associação criminosa para o tráfico interestadual de drogas entre Amazonas e Roraima. As investigações iniciaram em 2020, com a prisão em flagrante de um dos principais suspeitos, quando foram apreendidos 50kg de skunk, três veículos de luxo e mais de R$ 70 mil em espécie.
A suspeita é de que o vereador não só fornecia veículos para a atividade criminosa como também era patrocinado pelo tráfico, inclusive para ocupar a Presidência da Câmara. O Ministério Público apontou fortes indícios de que o parlamentar negociara drogas dentro de seu gabinete. Havia indícios também da participação de um piloto de avião que prestava serviços ao garimpo ilegal em Roraima. Não custa lembrar que, durante busca e apreensão da PF no caso da compra de votos, uma pepita de ouro foi apreendida com o vereador.
O que chama a atenção nessas investigações distintas é que todos os envolvidos, após presos pela PF, acabaram sendo premiados. No caso do então reitor Regys Freitas, ele foi exonerado do cargo para logo depois ser guindado ao cargo de controlador-geral do Estado. Só foi exonerado quando acabou preso em nova operação da PF. Mas não tardou para ser realocado em cargo público ao ser nomeado pelo Ministério Público de Contas (MPC), com data retroativa a 1º de janeiro deste ano, para assumir a função de assessor especial com salário de R$12 mil.
Já no caso da denúncia de crimes eleitorais, o coronel Francisco Lisboa assumiu o Serviço de Inteligência da PM, um cargo estratégico para as investigações de crimes, setor que recebe informações sensíveis da PF. No caso do vereador, ele saiu da prisão direto para ser reconduzido à Presidência da Câmara Municipal de Boa Vista, por 14 votos a 9.
Enquanto tudo isso ocorre, faccionados tocam o terror na Capital…
*Por Jessé Souza
