
Quase três anos depois do homicídio em Boa Vista, a Justiça condenou a 23 anos de prisão o venezuelano Antonio Jose Cabrera Soterano, integrante da organização criminosa transnacional “Tren de Aragua”, que desde a crise migratória, a partir de 2016, se estabeleceu em Roraima, conhecida por suas atividades violentas e expansão por vários países da América Latina e Estados Unidos.
Apontado como mandante da execução a tiros de um compatriota durante disputa de território pelo tráfico de drogas na Capital, o faccionado venezuelano, condenado na segunda-feira pelo Tribunal do Juri Popular, é integrante da estrutura da organização criminosa que até hoje desafia os poderes constituídos e avança seu poderio em vários bairros da cidade e nos municípios do interior, enquanto a Segurança Pública patina nas respostas à criminalidade.
O fato é que o Estado está sob domínio não apenas dessa violenta facção venezuelana, mas de outras duas brasileiríssimas (CV e PCC) contra as quais também há uma disputa pelo poder no mundo do crime. E o que chama a atenção nos meandros desse submundo é que, com o combate ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, essas facções já reorganizaram seus negócios e passaram atuar na agiotagem,
Com a nova atividade financeira ilegal, em que o dinheiro do tráfico é usado para a agiotagem, as execuções por dívidas começaram a ocorrer nos últimos meses em Boa Vista. Quem não consegue administrar os juros exorbitantes para saldar as dívidas volumosas, contraídas pelos empréstimos, acaba sendo executado. Isso é o que indica o caso do triplo homicídio ocorrido no bairro Asa Branca, na semana de Carnaval.
O referido crime revela ainda a grande conexão criminosa transnacional, em que um dos suspeitos é um ex-guarda venezuelano foragido da Justiça do país vizinho, o qual foi expulso da Guarda Venezuelana por envolvimento em roubo de veículos, tentativa de homicídio com uso de arma de fogo ilegal, posse de drogas e outros.
Diante esses casos, o alento que se tem é que a condenação do faccionado transnacional e a prisão do ex-guarda venezuelano revelam os esforços do Ministério Público e da Polícia Civil, além de outras instituições ligadas à Segurança Pública e ao sistema de Justiça, para fazer frente às organizações criminosas. No entanto, esses esforços terão que ser cada vez mais hercúleos se não houver uma política de governo que realmente freie a criminalidade, combatendo na linha frente a atuação das organizações criminosas.
No final, se o crime continuar se organizando e se recriando, como está ocorrendo na Capital, mostrando seu poderio com corpos estirados no chão em via pública ou em qualquer outro lugar, a atuação dessas instituições não irá passar de uma “política enxuga-gelo”, exigindo mais esforços e cada vez mais recursos que nunca serão suficientes para fazer frente à crescente criminalidade.
*Por Jessé Souza
