Autoridades anunciam que está tudo bem, mas… o fogo e a fumaça não podem ser escondidos

Fogo avança em áreas às margens da BR-174, onde os donos de fazenda se defendem como podem

Com o fim das chuvas esporádicas que proporcionaram um período de verão sem seca severa, do fim do ano passado até janeiro deste ano, esta semana as autoridades foram obrigadas a sair da zona de conforto para dar satisfação à opinião pública sobre as queimadas descontroladas e incêndios que avançam em boa parte do Estado, obviamente com focos de queimadas bem menores do que em anos anteriores.

Com quase um mês sem as chuvas que marcaram o período de La Niña, não demorou para o breve período de seca mais forte incendiar principalmente áreas de lavrados por todo o Estado. Apesar de as autoridades estaduais terem convocado uma entrevista coletiva para dizer que está tudo sob controle e dentro da normalidade, com a suspensão do Calendário de Queimadas, os fatos não podem ser traduzidos assim, com toda essa naturalidade.

O exemplo está na Serra do Tepequém, o principal ponto turístico de Roraima localizado na região Norte, no Município do Amajari, onde os primeiros focos de queimadas começaram a surgir nesses últimos dias. Embora tenha sido treinado um grupo de brigadistas para integrar o Grupamento de Combate a Incêndios Florestais (GCIF), em janeiro passado, não foram repassados os equipamentos necessários para o combate ao fogo.

Ou seja, mesmo que haja uma equipe treinada e um GCIF formado, nada mudou porque nenhum brigadista irá colocar sua vida em risco sem os equipamentos de segurança e de combate adequados, ficando na mesma de sempre, tudo sob a dependência de chamar o Corpo de Bombeiros Militar ou a Defesa Civil Municipal de Amajari, que rotineiramente trabalha na base do heroísmo pessoal de seus membros, pois a instituição não tem orçamento nem o suporte necessário.

Se esta é a situação de um ponto turístico que é vitrine para o Estado, então é possível imaginar a realidade de outras localidades onde a imprensa não chega, muito menos a população tem os canais para cobrar e denunciar. E assim pode-se ter uma noção da verdadeira face de como a questão do fogo é tratada pelas autoridades em todos os níveis de governo, onde não existe uma política de governo efetiva para treinar, conscientizar, prevenir, combater e punir autores dos que praticam incêndios criminosos.

Então, quando a natureza não conseguiu se defender sozinha, a exemplo do que ocorreu no fim de 2023 e início de 2024, durante o período de grande seca, quando a Serra do Tepequém teve todo seu ecossistema destruído pelo fogo, as autoridades demoraram a chegar ou nunca chegam. Quando chegaram para treinar, este ano, foi em cima da hora e sem oferecerem as condições mínimas para os brigadistas atuarem.

E o resultado é este: moradores, brigadistas e turistas assistindo ao fogo avançar até se tornar uma nova tragédia anunciada. É o mesmo cenário que pode ser visto em vários outros municípios, inclusive aos arredores da Capital, onde uma imensa área às margens do Rio Branco, do lado do Município do Cantá, está sendo queimada propositalmente para abrir uma imensa área para plantio, sem que nenhuma autoridade tenha chegado até lá (ou pelo menos nada foi divulgado sobre).

O período de chuvas logo chegará, a partir de abril. E com um detalhe a mais: com a chegada do El Niño, o que significará chuvas mais intensas este ano. Da forma que tudo é tratado em cima da hora, é muito provável que o inverno roraimense seja marcado por cenas repetidas das mesmas tragédias provocadas pelas fortes chuvas, com cheias de rios e igarapés por todo o Estado, e uma população desassistida por falta de um planejamento antecipado e definitivo.  

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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