
Independente das mudanças climáticas bruscas, normalizou-se o cenário de tragédias ambientais e humanas a cada período de seca e de chuvas em Roraima. O Estado vive momentos críticos em relação a queimadas criminosas e descontroladas nesses primeiros meses de 2026, enquanto os cientistas já começaram a alertar os brasileiros para que se preparem para o clima do país nesse mês de março.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) acaba de divulgar uma previsão de chuvas acima das expectativas na região Norte e Nordeste, a partir desse mês de março. chamando a atenção para a necessidade de uma preparação para eventos climáticos extremos no Brasil. A explicação seria uma Zona de Convergência Intertropical, que aumentará a umidade, resultando em chuvas significativas.
No entanto, fora desse espectro de mudanças climáticas bruscas, com verão e inverno marcados por cenários de tragédias conhecidos de todos, é necessário ter um olhar mais críticos para tal realidade, em que convencionou-se a opiniões de culpar a natureza, livrando os políticos e as políticas públicas (ou falta delas) a cada período de inverno e verão roraimenses.
A questão do garimpo ilegal pode servir de parâmetro para a realidade de seguidos governos alegaram a força da natureza, a falta de recursos e o isolamento da região amazônica para justificar a falta de uma ação organizada e efetiva para combater o garimpo ilegal. Porém, as ações do atual governo acabaram por comprovar que, quando existe vontade política e compromisso, é possível usar a tecnologia, as forças federais e o compromisso na defesa da Amazônia para combater a garimpagem na Terra Indígena Yanomami.
Na questão das queimadas criminosas, a tecnologia avança de forma muito rápida, com drones cada vez mais versáteis e tecnologicamente avançados, além de satélites que cobrem as regiões mais remotas em qualquer parte do mundo. Inclusive, essa mesma tecnologia de monitoramentos também poderia ser utilizada para mapear e antecipar ações em períodos de cheias que impõem outro martírio à população das cidades e do interior.
No entanto, há algo que precisa ser observado com muita atenção sobre essa normalização de cenários de tragédias a cada verão e inverno roraimenses. Existe uma força muito maior do que simplesmente a força da natureza que impõe realidades de seca e chuvas extremas. Trata-se de uma política velhaca que, para se manter, precisa que a realidade dessas tragédias precisa ser mantida e pensada como se fosse um desígnio da natureza.
Secas rigorosas com incêndios criminosos recorrentes e chuvas torrenciais com alagamentos e destruição de estradas e pontes de madeira tornaram-se um alimento para essa política de decretar “estado de calamidade”, que por sua vez permite o Esteado e municípios receberem altos volumes de recursos emergenciais e que podem ser gastos sem licitação ou sem burocracias, o que impede o efetivo controle e fiscalização.
É a mesma política de manter pontes de madeira por todo o Estado, as quais são destruídas rapidamente não apenas pelo fluxo constante de veículos, mas pela ação do tempo e de cupins. E isso requer um gasto alto e constante com manutenção, drenando recursos públicos que poderiam servir para outros setores emergenciais, mas que acabam alimentando essa política velhaca e pré-histórica.
Não pode ser esquecido o que ocorreu nas eleições de 2022, quando em pleno período eleitoral houve uma pandemia de decretos emergenciais, a ponto de 12 municípios terem recebido verbas emergenciais sob a alegação de mitigar os efeitos das chuvas do inverno. No entanto, as obras nunca foram vistas e muito menos a destinação desses recursos até hoje se tem notícia.
O único fato concreto é que, dentro dos processos de cassação do governador, em que um deles está parado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), um dos motivos foi a destinação desses recursos emergenciais para os 12 prefeitos aliados. Aqui está o âmago dessa questão, que não é algo novou ou inventado agora. Trata-se de uma política arcaica, que quer manter tudo como está, a exemplo das destinações de emendas parlamentares, cujos escândalos são normalizados também.
É sobre esse olhar crítico que as pessoas precisam ter a cada tragédia humana e ambiental no inverno e verão, para que esses cenários não sejam tratados como algo normalizado ou um desígnio da natureza. Cada incêndio criminoso, estradas destruídas pelas chuvas ou pontes de madeira caindo aos pedaços não são castigos divinos. A política pré-histórica é proposital e tem muita gente ganhando com isso, enquanto a população fica com as tragédias.
*Por Jessé Souza
