Baixo efetivo da Força Nacional e agentes despreparados dificultam a execução de ações protetivas nas regiões mais afastadas do território, segundo eles

Após meio ano da execução da Operação Escudo Yanomami pelo governo de Lula, que tinha como objetivo lidar com a crise humanitária nas terras indígenas, diversas organizações e líderes estão denunciando que o garimpo ilegal está ressurgindo, o crime organizado continua ativo e as medidas de proteção em áreas-chave estão sendo ineficazes. Em uma entrevista exclusiva à revista Carta Capital, Maurício Ye’kwana, um líder da associação indígena Hutukara, enfatiza que o crime organizado persiste em operar em regiões inacessíveis das terras Yanomami, onde a Força Nacional não consegue chegar. Devido à falta de presença das autoridades no local, houve um retorno parcial de garimpeiros à área.
“Cerca de 70% da mineração ilegal recuou de forma intencional em nosso território. No entanto, o maior desafio agora é a presença de grupos criminosos e facções dentro das nossas terras. Esses grupos têm poder para confrontar as forças militares . Nos últimos meses, ocorreram diversos conflitos e tiroteios nas regiões”, destaca Ye’kwana.

Um problema adicional mencionado por Maurício é a constante ameaça de recrutamento de jovens indígenas para o tráfico. De acordo com ele, as facções aproveitam a ausência do governo e oferecem incentivos como roupas, comida e até álcool para os indígenas em situação vulnerável. Ele expressa preocupação com a possibilidade de que esses jovens sejam recrutados e fornecidos com armamento pesado, ressaltando: “Nós conhecemos a capacidade deles.” É importante lembrar que a cultura Yanomami não inclui o consumo de bebidas alcoólicas.
A falta de familiaridade com essas substâncias tem levado a episódios de agressividade e doenças entre os membros das comunidades isoladas, que atualmente enfrentam dificuldades para receber a assistência médica que a Operação Escudo Yanomami deveria garantir. A persistência do crime organizado e a expansão de novos pontos de mineração ilegal são mais evidentes, especialmente nas áreas dos rios Apiáu e Couto Magalhães.
Essas alegações estão documentadas em um relatório entregue às autoridades governamentais em 2 de agosto. O relatório enfatiza também a precariedade da infraestrutura das equipes de saúde nas comunidades Yanomami. O documento ressalta não apenas o retorno da mineração ilegal, mas também a precariedade da infraestrutura das equipes de saúde nas comunidades Yanomamis.
Dos seis territórios avaliados no relatório, três não possuem unidades de saúde e em cinco deles as equipes médicas não visitam as aldeias regularmente. A violência decorrente do crime organizado e da mineração ilegal também cria uma situação de insegurança, dificultando ainda mais a atuação e permanência de médicos em hospitais mais remotos. O relatório identifica seis áreas consideradas “em situação crítica” pelos líderes indígenas: Parafuri, Xitei, Haxiu, Homoxi, Parima e Kayanau.
Além disso, essas regiões estão enfrentando um aumento contínuo nos casos de malária, com mortes recentes associadas à falta de tratamento adequado e doenças que poderiam ser facilmente erradicadas, como a diarreia. Maurício também destaca que nas áreas onde há assistência médica disponível, as equipes de médicos voluntários não recebem treinamento específico para lidar com as comunidades indígenas. O líder indígena destaca outro ponto importante, que é uma conduta militar adotada pelos agentes da Força Nacional, levantando dúvidas sobre sua evolução.

De acordo com Maurício, esses agentes frequentemente demonstram inaptidão para coordenar adequadamente a distribuição dos suprimentos enviados pelo governo. Esses recursos se acumularam em áreas de fácil acesso, enquanto escasseiam em aldeias remotas, resultando em alimentos perecíveis estragados devido a atrasos na entrega. Ele ressalta que esses agentes são autoritários, apenas obedecem ordens e não estabelecem diálogo, nem se comunicam com os líderes locais, não oferecendo orientações. Basicamente, eles simplesmente lançam os suprimentos na região e consideram o trabalho feito.
Além da falta de um treinamento sensível às necessidades humanitárias do povo Yanomami, a carência de um número suficiente de agentes operando na região também é limitada por questões de interesses pessoais em conflito. A presença de forças militares oriundas das autoridades locais é motivo de preocupação para as lideranças indígenas. Maurício aponta que os agentes vindos das cidades vizinhas podem ter parentes e outras conexões com pessoas envolvidas na mineração ilegal na região.
“Não é apropriado permitir que o exército local ou regional intervenha no território Yanomami. Isso poderia favorecer atividades criminosas e mineração ilegal. Às vezes, são seus próprios pais que estão envolvidos nisso, e eles enxergam a mineração ilegal como uma forma de trabalho. Essa é uma observação que fazemos com frequência“, afirma Maurício.
Fonte: Carta Capital https://www.cartacapital.com.br/sociedade/yanomamis-alertam-para-volta-do-garimpo-e-aumento-do-crime-organizado-nas-aldeias/
