
É a vida real passando em cena repetida durante acidente fatal numa ponte de madeira, que resultou na morte de duas mulheres e de um bebê recém-nascido no Município de Uiramutã, na madrugada de segunda-feira. Não houve comoção pública, nem discurso na tribuna dos legislativos, nada de repercussão nas redes sociais nem indignação por parte de entidades ou no meio da blogueiragem.
Como se tratavam de indígenas de uma região isolada do Estado, então não coube comoção por parte da sociedade anti-indígena. Nem na política sobrou tempo para indignação, mesmo que pontes de madeira por todo o interior de Roraima, e não somente no Uiramutã, representem um acinte por parte de governos e políticos que recebem montanhas de recursos públicos, mas não fazem manutenções básicas nas que estão deterioradas nem sequer pensem em construir pontes de concretos.
E tudo isso foi comentado no artigo “Cenas repetidas de inverno e uma enxurrada de cifras anunciadas desde 2021”, publicado em 19 de junho passado, quando foi tratado sobre estradas e vicinais que se tornariam atoleiros, pontes de madeira desabando, buraqueira nas estradas e toda desgraça que as chuvas de inverno proporcionam às populações mais pobres e desassistidas.
Não se trata de uma novela global repetida, mas da realidade de Roraima que insiste em seguir na mesmice do abandono governamental. E não era para ser assim, pois dede 2021foram anunciados cerca de R$ 372 milhões em investimentos, sendo a cifra de R$ 230 milhões destinada para asfaltamento de estradas, recuperação, substituição e construção de pontes, bem como mais R$ 240 milhões que seriam investidos especificamente no interior do Estado.
No ano seguinte, mais verbas anunciadas. Por causa de um cenário semelhante a este, com estragos provocados pelas fortes chuvas, em junho de 2022, faltando 100 dias para as eleições, o Governo do Estado destinou mais R$70 milhões para 12 municípios do interior, com autorização da Assembleia Legislativa de Roraima, amparada por decretos de calamidade pública oficializados pelos prefeitos por causa do inverno.
Em seguia, no mesmo mês, o governo anunciou quase R$105 milhões em contratos direcionados para obras e serviços nos 15 municípios do Estado, mais precisamente em 20 de junho, sem especificar nada, apenas alegando que o montante de recurso seria para limpeza urbana, abertura e conservação de ruas em vilas, remoção de entulhos, demolições de prédios, limpeza de escolas e prédios públicos na Capital e nos municípios do interior.
Ou seja, não era para haver mulheres e recém-nascido morrendo afogados dentro de um carro desabando de cima de ponte de madeira caindo aos pedaços. Não era para haver pontes de madeira sem manutenção ou caindo aos pedaços em lugar nenhum do Estado, como se tem visto nesses últimos anos em vários municípios. Nem atoleiros ou cidades do interior com cenário de terra arrasada.
A política tem sido feita desta forma, com recursos anunciados aos montes, mas sem que a população saiba onde as cifras tenham ido parar. Mas ninguém liga para o que está acontecendo, da mesma forma que o caso das duas mulheres e o bebê indígenas não mereceram qualquer tipo de indignação, mesmo sendo mortes anunciadas e que devem ser creditas na conta dos políticos.
*Por Jessé Souza (jesseroraima@hotmail.com)
