
Na esteira da grande repercussão nacional sobre a adultização e a exploração sexual de crianças e adolescentes nas redes sociais, após denúncia feita pelo influenciador Felca, o programa Profissão Repórter (TV Globo) de terça-feira, 26, mostrou a realidade de diferentes regiões do país, revelando como o Brasil ainda falha na proteção à infância e na garantia dos direitos de crianças e adolescentes.
Um dos locais visitados pela equipe foi Boa Vista, Capital de Roraima, que ganhou destaque na reportagem porque é a cidade que lidera o ranking nacional de violência sexual contra meninas e mulheres, com taxa de 132,7 casos a cada 100 mil habitantes. O desafio foi exposto a partir do trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente, que recebe diariamente novas denúncias e que enfrenta dificuldades diante do grande número de casos.
No entanto, não foi abordada somente a realidade negativa. A reportagem mostrou um programa social realizado em Boa Vista que acompanha famílias em situação de vulnerabilidade, atendendo a mães gestantes e crianças de até 2 anos de idade, que contribui para mudar essa realidade. Trata-se do Programa Família Que Acolhe (FQA), criado em 2013 e que ao longo dos anos acabou se tornando referência nacional de política pública voltada para a primeira infância.
O trabalho vai desde o acompanhamento da saúde, com pediatras e psicólogos, passando por palestras para os pais e também distribuição de itens básicos para os cuidados com as crianças. Na entrevista, a coordenadora do PQA, Valéria Reinbold, comentou sobre os temas trabalhados nas palestras, que inclui a negligência na primeira infância, onde entra a questão da violência sexual da criança, classificado por ela com “um tema tenso”, mas que precisa ser tratado porque contribui para a proteção das crianças.
Para se ter uma ideia, das grávidas inscritas no programa, 420 são menores de idade, conforme mostrou a reportagem. Valéria Reinbold concordou que a sexualização precoce tem relação direta com a gravidez na adolescência, pois, na infância, não se pode queimar etapas, uma vez que, adultizando a criança, acaba-se estimulando a sexualidade e a sensualidade, fazendo com que a criança deixe de conhecer o mundo dela, que é o mundo infantil.
Os trabalhos desenvolvidos pelo programa social em Boa Vista mostram que, quando o poder público garante às crianças direitos básicos, como cuidados adequados e ambientes seguros, além de apoiar e orientar os pais e mães, também está cuidando da família, por meio de visitações domiciliares, garantia de vagas em creches e consultas médicas, proporcionando mais dignidade a quem precisa de apoio para garantir uma infância segura aos seus filhos, inclusive prevenindo os abusos sexuais.
A reportagem acabou por mostrar que, independente dos desdobramentos que vêm ocorrendo a partir da denúncia do influenciador Felca, com o cerco aos criminosos, a grande verdade é que o Brasil só irá começar a reverter essa triste realidade da infância brasileira quando houver uma política nacional, integrada com estados e municípios, direcionada para a primeira infância, período de vida este em que as políticas públicas são decisivas para a formação de um novo cidadão desde o berço.
O Brasil precisa de um pacto sobre a Primeira Infância, aos moldes do que vem ocorrendo em Boa Vista. Urgente!
*Por Jessé Souza
