Fugindo da fiscalização, venezuelanos cruzam a pé a fronteira com o Brasil após nova crise

Travessias a pé em Pacaraima se intensificam enquanto motoristas evitam postos oficiais por receio de abordagens e controles migratórios no lado brasileiro
Fluxo migratório segue intenso na fronteira com Pacaraima (Foto: Divulgação)

A intensificação da crise política e econômica na Venezuela voltou a pressionar a fronteira norte do Brasil, especialmente na cidade de Pacaraima, em Roraima. Com receio de fiscalizações mais rígidas e abordagens do Exército Brasileiro, migrantes venezuelanos têm optado por atravessar a fronteira a pé, carregando tudo o que conseguiram trazer do país vizinho. O movimento, embora silencioso, tornou-se recorrente nos últimos dias e revela o impacto direto da instabilidade no país governado por Nicolás Maduro.

Ao longo de apenas duas horas de observação na linha divisória entre Brasil e Venezuela, cerca de 150 pessoas foram vistas cruzando a fronteira a pé. Muitas delas carregavam sacolas improvisadas, mochilas, utensílios domésticos e, em alguns casos, crianças de colo. Esse fluxo, embora constante, ocorre fora dos veículos, já que motoristas que realizam transporte irregular evitam se aproximar do posto migratório brasileiro por medo de fiscalização.

A informação foi divulgada pelo jornal O Globo, que acompanhou a movimentação na fronteira ao longo de dois dias, ouviu migrantes e também pessoas que lucram com o transporte informal entre os dois países, revelando um padrão de travessias cada vez mais precárias e arriscadas.

Fiscalização e o medo empurram famílias para longas caminhadas

Segundo os relatos colhidos pela reportagem, a orientação dos motoristas é clara: os passageiros devem descer antes do controle migratório e seguir a pé até o lado brasileiro. Como resultado, famílias inteiras caminham sob sol forte, carregando tudo o que possuem. A prática, além de desgastante, expõe adultos, idosos e crianças a riscos físicos e emocionais.

Esse foi o caso de André González, de 52 anos, que atravessou a fronteira carregando uma grande trouxa de roupas sobre a cabeça. Natural de Casanay, no estado de Sucre, ele deixou a Venezuela pela primeira vez após a morte da esposa, em agosto do ano passado. Segundo ele, a decisão de migrar não foi imediata, mas acabou se tornando inevitável.

“Eu não queria vir. Fiquei na minha casa. Mas minhas filhas já estavam fora e diziam que eu não podia continuar lá sozinho. Minha esposa morreu em agosto, e depois disso tudo ficou mais difícil”, relatou. A fala de González reflete o dilema enfrentado por milhares de venezuelanos que resistem ao máximo antes de abandonar o país.

Crise econômica destrói o trabalho informal e força a saída

A situação econômica, segundo os próprios migrantes, tornou-se insustentável, sobretudo para quem depende de trabalhos informais. González explicou que sempre conseguiu sobreviver fazendo “um pouco de tudo”, mas que as oportunidades desapareceram rapidamente nos últimos meses.

“A situação está dura. Não vou dizer que está fácil. A economia está dura. Quando a pessoa só sabe fazer uma coisa, fica mais complicado. Mas eu faço de tudo. Trabalho com refrigeração, rebobinando motores, trabalho em construção. Faço o que aparecer”, afirmou.

A viagem até a fronteira levou cerca de 24 horas. González deixou a mãe na Venezuela e seguiu sozinho rumo ao Brasil, incentivado por familiares que já vivem no país. O destino final é Manaus, onde ele espera encontrar trabalho e reconstruir a vida.

Outro migrante, Marco Nosto, de 46 anos, também cruzou a fronteira a pé, carregando uma caixa com utensílios domésticos e uma trouxa de roupas. Ele contou que pagou US$ 10 a um motorista apenas para chegar até o posto de controle do Exército venezuelano. A partir dali, caminhou cerca de dois quilômetros até alcançar o território brasileiro. “Não estou trazendo nada ilegal, mas o motorista ficou com medo de ser preso”, explicou.

Fome, medo político e travessias cada vez mais precárias

Para Nosto, a decisão de deixar a Venezuela foi motivada pela fome e pelo medo em relação ao futuro político do país. Mesmo com prisões e disputas internas, segundo ele, o regime de Nicolás Maduro continua exercendo forte influência sobre a população.

“Saí da Venezuela por causa da fome e do medo do regime Maduro. Não tem mais como viver lá. Amo meu país, mas agora tudo está mais difícil. Sem renda, sem dinheiro para comida e agora também sem saber quem vai mandar no país”, desabafou.

Ao longo do dia, a cena se repete na fronteira. Homens, mulheres e crianças chegam exaustos após horas de caminhada. Muitos relatam ter passado dias na estrada, com pouco acesso a água e comida, antes de alcançar Pacaraima. Apesar do temor inicial de um fluxo desordenado, autoridades militares afirmam que a situação segue sob monitoramento e, até o momento, dentro da normalidade.

Na prática, porém, o aumento da fiscalização e o medo de abordagens têm empurrado os migrantes para caminhos mais longos, cansativos e inseguros. Para quem chega, o objetivo imediato é encontrar abrigo, trabalho e algum tipo de assistência. Muitos seguem para Boa Vista ou Manaus, enquanto outros permanecem em Pacaraima à espera de vagas em abrigos. Para todos, a travessia a pé marca o início de uma tentativa de recomeço em território brasileiro.

Fonte: Com medo de fiscalização do Exército, venezuelanos cruzam a pé a fronteira com o Brasil, carregando famílias e pertences após nova crise no país – RSM – Revista Sociedade Militar

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