Morte de cuidadora há dois anos não foi suficiente para melhorar condições dos abrigos

Denúncias sobre situação de Abrigo Feminino vêm desde 2021 sem que melhorias fossem realizadas (Foto: Divulgação)

Dois anos se passaram desde a morte da cuidadora Ana Maria, que há época tinha 54 anos quando foi vítima de agressão praticada por uma interna dentro do Abrigo Feminino no bairro São Vicente. No entanto, desde lá pouca coisa mudou na realidade dos abrigos mantidos pela Secretaria Estadual do Trabalho e Bem-Estar Social (Setrabes) com relação à segurança, condições de trabalho e estrutura.

As reclamações sobre insegurança e estrutura voltaram a ganhar eco enquanto as atenções estão voltadas para o Carnaval. Naquele momento do fatídico episódio da morte de Ana Maria, os agentes sócio-orientadores completavam 20 anos de concursado no cargo e ainda pedindo melhores condições de trabalho. A vida de uma profissional no exercício da função não foi o suficiente para mudar a realidade.

Durante o episódio, os cuidadores e cuidadoras seletivados silenciaram-se porque temiam ser exonerados em represália, já que seguem até hoje na insegurança de se manterem no emprego de forma não efetiva, uma vez que nem concurso público foi realizado, conforme foi cobrado pelos servidores dos abrigos dois anos atrás. O tempo passou, a morte já foi esquecida pelas autoridades e a aparente tranquilidade é só uma fachada.

Conforme os profissionais, a adolescente que agrediu fatalmente Ana Maria continua ameaçando de morte os trabalhadores do Abrigo Feminino e cometendo agressões contra as cuidadoras em momentos de surtos constante, quando faz questão de lembrar que outras servidoras podem ter o mesmo fim de Ana Maria.

São vários os relatos de violência, quando a interna agride servidores, ameaça as pessoas com gargalo de garrafa na mão para fugir do abrigo, quebra veículos dos servidores no estacionamento, destrói janelas do abrigo, além de outros atos de violência, o que faz com que a adolescente seja internada no hospital.

Apesar das seguidas reclamações das servidoras e servidores, a segurança no Abrigo Feminino e no Abrigo Masculino (que acolhem de 15 a 20 crianças e adolescentes de 12 a 17 anos, cada um) continua precária desde a morte de Ana Maria, o que deixa todos inseguros, especialmente dentro desse novo contexto de adolescentes que passaram a integrar facções criminosas ou que têm problemas com facção que dominam os bairros da Capital.

A realidade de incerteza e insegurança, diante de um salário de R$2,5 mil, fez com que muitos dos 240 cuidadores contratados por meio do mais recente seletivo, realizado no ano passado, pedissem demissão.  Vale ressaltar que a cuidadora que morreu vítima de agressão pensava em desistir do trabalho, não só pela carga horária estressante imposta aos seletivados, mas pelas condições de trabalho em um local sem qualquer garantia de segurança aos servidores, onde não existe sistema de câmeras de vigilância.

É perturbador saber que a vida de uma profissional não foi suficiente para que as autoridades tomassem todas as medidas reivindicadas e providências administrativas para não apenas manter qualidade de atendimento dos internos dos abrigos, mas garantir a integridade física e a própria vida dos trabalhadores e trabalhadoras. Será necessário que mais alguém morra para que haja um despertar de realidade?

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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