Bloqueio de rodovia e os números da violência contra os povos indígenas de Roraima

Comunidades indígenas pedem justiça pela morte de liderança indígenas no Amajari (Foto: CIR/Divulgação)

A manifestação organizada pelas comunidades indígenas do Município do Amajari, que bloqueou a rodovia estadual RR-203, acabou pegando de surpresa turistas que foram para a Serra do Tepequém durante o período carnavalesco. Como o principal ponto turístico de Roraima se tornou uma vitrine, ainda que ignorada pelas autoridades, o bloqueio da estrada acabou servindo para discutir a violência e o preconceito contra os povos indígenas.

A mobilização teve como finalidade cobrar justiça pela morte da liderança indígena Gabriel Ferreira Rodrigues, cujo corpo foi encontrado às margens daquela rodovia dez dias depois do seu desaparecimento. O silêncio da sociedade com relação ao desaparecimento da liderança foi quebrado por aqueles que enxergam o bloqueio programado como uma afronta e uma agressão ao seu direito de ir e vir. Se esse protesto não tivesse sido realizado, é muito provável que o silêncio persistiria até que o caso caminhasse para o esquecimento total.

Da mesma forma que não ganharam repercussão os seguidos alertas de crimes cometidos contra os povos indígenas em Roraima. O mais recente foi o relatório “Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil”, divulgado no ano passado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que apontou Roraima como campeão de assassinatos de indígenas no Brasil em 2024, com 57 casos.

No mesmo período, o Estado também contabilizou 139 mortes de crianças indígenas de até 4 anos, ocupando a segunda posição no país nesse índice, atrás do Amazonas, que teve 274 casos. Três estados com maior número de assassinatos têm se mantido constantes nos últimos anos: Roraima (57), Amazonas (45) e Mato Grosso do Sul (33). Há um destaque para a Bahia, onde 23 indígenas foram assassinados.

Ainda que não se saibam os motivos da morte do indígena, com indícios de um assassinato, é importante lembrar que Amajari possui oito terras indígenas que concentram 19 comunidades das etnias Macuxi, Wapichana, Sapará e Taurepang. Da mesma forma que também é um município com grande número de fazendas, boa parte delas pertencentes a políticos e seus familiares.

O mais recente conflito agrário foi resolvido na bala. O então candidato a prefeito do Amajari, Toinho da Aderr, foi executado a tiros durante um ataque a sua residência, na noite de 24 de setembro em pleno período eleitoral. A Polícia Civil identificou o ex-deputado federal Raul Lima como o mandante do assassinato, que nunca chegou a ser preso, enquanto os funcionários dele foram presos como executores. A motivação do crime foi uma disputa por terras que durava 15 anos.

Independente da motivação da morte de Gabriel Rodrigues, é preciso lembrar do Relatório do Cimi, que relata grilagem de terras indígenas, exploração ilegal de madeira e corrupção, incluindo o caso na Terra Indígena Pirititi, no Sul do Estado, quando o Ministério Público Federal e a Polícia Federal realizaram uma ação conjunta, em maio de 2023, confirmando a invasão e a atuação de posseiros e grileiros, os quais inclusive tinham os registros do Cadastro Ambiental Rural (CAR) sobrepostos a quase metade daquela terra indígena.

As investigações apontaram um engenheiro agrônomo como operador do esquema de grilagem digital, cadastrando mais de 6 mil hectares de fazendas que se sobrepõem ao território Pirititi em seu domínio. Esse profissional é acusado de estar associado a um histórico de desmatamento ilegal e práticas corruptas, conforme denúncia apontada pela imprensa, à época. Essa é a forma de operar dos agressores dos povos indígenas, especialmente em áreas cercada por fazendas, como é o caso do Amajari.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

Deixe uma resposta