De olho na nova realidade do agro que surge ao longo das rodovias

O agronegócio promete muito nos discursos políticos, mas devolve pouco de retorno para a sociedade (Foto: Divulgação)

Quem viaja pelas rodovias roraimenses com certeza já percebeu a mudança da paisagem ao longo das margens das estradas, com o lavrado dando lugar a grandes plantações, a exemplo do que está ocorrendo há um certo tempo na BR-401 (em direção à Guiana) e do que começou a ocorrer recentemente no trecho norte da BR-174 (em direção à Venezuela). E as transformações não são apenas no visual. Vai mais além quando se trata do crescimento do agronegócio.

A propósito desse assunto, o portal Poder360 divulgou um levantamento, no dia 15 deste mês, mostrando que o Brasil fechou 2023 com o maior saldo da balança comercial da história, de US$ 98,8 bilhões. Os dados revelam um recorde nas exportações de matérias-primas e produtos primários de baixo valor agregado. Em 25 das 27 unidades da Federação, os produtos mais exportados foram commodities, com as mercadorias agrícolas liderando com folga.

Conforme os dados, a campeã absoluta das exportações nacionais é a soja, principal item vendido pelo exterior em 11 unidades da Federação, entre elas Roraima. O grão respondeu por 16% de todo o valor comercializado pelo Brasil, com US$ 53,2 bilhões em vendas e 101,8 milhões de toneladas exportadas. E a soja está sendo mirada principalmente pela política local de desenvolvimento, por isso é necessário observar o assunto com muita atenção e cautela.

Os números e os dados soam muito bonito na boca dos políticos e nos discursos replicados nas redes sociais, apresentando altos investimentos, crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país, geração de empregos e renda e promessa de acabar com a fome. No entanto, a realidade não é bem assim e há muita distância do que se prega e do que efetivamente é a realidade.

Especialistas ouvidos pelo Poder360 analisam que a pauta exportadora baseada em matérias-primas e itens de baixo valor agregado é histórica no país, que remonta o achamento do Brasil em 1500, quando os portugueses desembarcaram e passaram a desenvolver uma economia primária, baseada na extração e exportação de pau-brasil e, posteriormente, de ouro, outros minerais e produtos agrícolas, como café e açúcar. Ou seja, o país de hoje continua como se estivesse no Brasil colônia em termos de exportação de commodities.

E não apenas isso. O discurso do agro promete muito, mas entrega pouco de retorno para a população e concentra mais ganhos para uma elite agrária, que tradicionalmente exclui os fatores humanos do campo. A começar pelas máquinas que substituíram o trabalhador rural, as quais são moderníssimas e podem ser operadas por apenas uma pessoa, na cabine com ar-condicionado. No caso de Roraima, esse operador é inclusive trazido de fora apenas em tempos de colheita.

Como estamos observando ao longo das rodovias federais, as propriedades de pequenos produtores estão sendo adquiridas pelo agro, criando uma especulação fundiária que está expulsando os pequenos do campo e que já entrega as terras agricultáveis nas mãos de um reduzido número de proprietários. Mais precisamente, essas propriedades agricultáveis estão nas mãos de apenas 1% de estabelecimentos agrícolas (Fonte: Ecopédia, Mariana Policarpo).

Ao agro interessa produção em larga escala para vender para fora, exportando em dólar (por isso interessa um dólar lá em cima). Como os grandes não pagam impostos, devido às isenções dadas por um governo bonzinho com os grandes, o fator humano não é levado em conta e, muitas vezes, a questão ambiental também passa ao largo, assim como a questão fundiária é trabalhada na política para que sejam abertas as terras indígenas e para expulsar os pequenos das áreas agricultáveis (se necessário, à força).

É por isso que esse movimento que está ocorrendo no Estado, o qual pode ser visto às margens das principais rodovias, precisa estar sob avaliação da sociedade. Porque o agro promete muito, mas entrega pouco, concentrando terras nas mãos de pouquíssimas pessoas. Sim, há muitos benefícios, mas a um custo alto do meio ambiente, da pobreza das pessoas, das isenções, da especulação imobiliária…   

Por Jessé Souza (jesseroraima@hotmail.com)

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