
Os inimigos do meio ambiente e das populações indígenas não perdem nenhuma oportunidade para tentar emplacar suas propostas e projetos. Aproveitar uma tragédia local ou global para suas práticas é um modus operandi que vem sendo repetido desde a pandemia da Covid-19, quando o ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, Ricardo Salles, propor “passar a boiada” para desmantelar as legislações ambientais, em abril de 2022.
O então ministro Salles não escondeu a estratégia de aproveitar a atenção da mídia e da população mundial voltada para o avanço do novo coronavírus para mudar as regras ambientais, sem o risco de ser questionado na Justiça, a fim de beneficiar o agronegócio e grandes mineradoras. Depois, ele foi alvo de acusação de corrupção para favorecer uma madeireira que teve um carregamento ilegal de madeiras apreendidas na Amazônia e que seria enviada para os Estados Unidos.
Antes disso, o próprio Bolsonaro deu uma declaração na Rádio Folha defendendo que a guerra da Rússia e Ucrânia era grande chance para abrir as terras indígenas para exploração de fertilizantes. A proposta era desenterrar um projeto de lei de dois anos atrás que permitia a exploração das terras indígenas pelo agronegócio, garimpo, madeireiras e outros grandes empreendimentos.
Agora, surge a proposta do parlamentar capixaba Evair de Melo (Progressistas-ES) que, se aproveitando da tragédia no Rio Grande do Sul, apresentou uma proposta que foi aprovada pela Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados para a realização de uma audiência pública a fim de discutir o fim da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima.
Sempre que há uma grande tragédia humana e ambiental, os detratores estarão sempre atentos para tentar se aproveitar do momento de comoção e da atenção da opinião pública voltada para o tema a fim de aplicar seus golpes contra o meio ambiente e os povos indígenas. Eles não perdem nenhuma oportunidade, mesmo que a proposta seja um absurdo, a exemplo da questão Raposa Serra do Sol, que vai definida em definitivo pelo Supremo Tribunal Federal.
A opinião pública precisa estar ciente dessa estratagema, para que possa repelir qualquer esperteza política que se valha da comoção coletiva, quando as pessoas ficam mais suscetíveis a caírem em armadilhas bem elaboradas. Os golpes da boiada e da guerra na Ucrânia são bons exemplos a serem espelhados.
*Por Jessé Souza (jesseroraima@hotmail.com)
