Terra indígena em Roraima tem uma população de 27 mil indígenas, com cinco diferentes povos – Macuxi, Wapichana, Taurepang, Patamona e Ingarikó -, a qual sempre foi alvo de ataques e que outra vez volta a ser questionada por deputados bolsonaristas que se aproveitam da tragédia ambiental no Rio Grande do Sul para tentar reverter demarcação confirmada pelo STF

As comunidades da Terra Indígena Raposa Serra do Sol e o Conselho Indígena de Roraima (CIR) reagiram à aprovação do requerimento do deputado federal Evair de Melo, do Espírito Santo, aprovado na Comissão de Agricultura da Câmara Federal, na quarta-feira, 12. O requerimento solicita a realização de audiência pública para discutir a reversão da demarcação da terra indígena visando a volta da produção de arroz no território. Uma das justificativas é a escassez de arroz, no Brasil, em decorrência da enchente no Rio Grande do Sul nos últimos meses.
Na avaliação do CIR e das lideranças indígenas da Raposa Serra do Sol, a proposta representa a volta da invasão no território, que já é demarcado, homologado e reafirmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e que, portanto, não há nenhuma possibilidade de reversão ou volta da produção de arroz, principalmente nas áreas que foram totalmente destruídas. A TI Raposa Serra do Sol possui uma população de 27 mil indígenas, com cinco diferentes povos: Macuxi, Wapichana, Taurepang, Patamona e Ingarikó.
Ao tomar conhecimento do debate na Câmara Federal, o vice-tuxaua-geral do CIR, Enock Taurepang, ao relembrar a luta pelo território que segue até hoje pela demarcação e ampliação de algumas terras, afirmou para as instituições e parlamentares que as terras indígenas que foram demarcadas são utilizadas pelas populações indígenas para a produção de alimentos e à preservação do meio ambiente.
“Não é um pensamento de fazer grandes plantações, destruição da natureza, é a nossa própria vida. Esse pensamento retrógado desses parlamentares do Espírito Santo é uma visão de como ainda o Brasil tem esse pensamento colonizador, um pensamento que é incapaz de pensar em um progresso de um desenvolvimento conjunto. Então, fica ainda mais difícil quando tem parlamentares ainda com essa mentalidade de um tempo ainda de quando o Brasil foi invadido. Com pensamento que eles descobriram e acham que tem a solução para tudo. E não é assim, a gente vive em País democrático, onde as comunidades indígenas precisam ser ouvidas, respeitadas da forma que querem viver. As instituições e o próprio movimento indígena não estão parados. A gente tem criado estratégias e mecanismos de como apoiar de fato as nossas iniciativas de produção”, destacou Enock.



“Não é um pensamento de fazer grandes plantações, destruição da natureza, é a nossa própria vida”. Plantações na terra indígena Raposa Serra do Sol.
O coordenador da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, Arizona Menandro, que abrange quatro regiões (Surumu, Baixo Cotingo, Raposa e Serras), ressaltou que os povos indígenas têm ocupado todo território com suas plantações tradicionais. A maior parte da terra indígena é ocupada pela pecuária sustentável. A região é uma das maiores produtoras de bovinocultura do Estado, mas, infelizmente, o Estado não reconhece, segundo ele.
“O território é um grande reprodutor, um grande berço de reprodutor. Hoje, são aproximadamente 40 mil reses no nosso território. As comunidades indígenas aumentaram, a população teve um aumento, o território foi todo ocupado. Os arrozeiros deixaram degradações, deixaram o nosso território devastado, e houve a defasagem dos animais silvestres. Hoje o povo indígena está tentando ainda recuperar o nosso território, usando pra bovinocultura, fazendo reflorestamento. A Raposa Serra do Sol tem também as nossas produções orgânicas. Aqui não tem uma família que passa necessidade. O nosso território, com a nossa floresta, rios e lagos, é tudo para nós. Estamos protegendo o nosso território. Não aceitamos de forma algum discutir o retorno desses invasores no nosso território”, disse o coordenador.



Produção e sementes tradicionais dos produtores da T.I. Raposa Serra do Sol
Segundo ele, em contraponto aos argumentos de que a Terra Indígena Raposa Serra do Sol está improdutiva, a realidade mostra outro cenário, em que o avanço na pecuária, produção agrícola, piscicultura e outras produções sustentáveis são realidades sem invasores e produções que só destroem o meio ambiente, como era antes com a presença de fazendeiros e arrozeiros.
Como alternativa de apoio às comunidades, o CIR e suas bases consolidam o Fundo Indígena Rutî, destinado a apoiar atividades produtivas familiares, comunitárias e regionais. O fundo busca fortalecer as iniciativas que já existem nas comunidades.
Coordenando a iniciativa, Enock Taurepan ressalta que a organização está na implementação do Funfo Ruti, que visa trabalhar junto as comunidades para apoiar as iniciativas em nível regional, comunitário e familiar. “Vamos começar apoiar essas iniciativas de produção, justamente para sair dessa prisão e dessa armadilha que o governo usa para as comunidades indígenas, para cooptar lideranças e famílias. Exemplo; eu dou algumas coisas para você, e em troca eu quero você para sempre aos meus pés, para sempre, me ajudando chegar ao poder de governo, vereador, deputado federal e de senador”, frisou.



Raposa Serra do Sol é um grande reprodutor, com 40 mil reses, onde as comunidades indígenas aumentaram e o território foi todo ocupado
Ele refletiu sobre a relação dos órgãos governamentais com os povos indígenas. “Não é que não quereremos ajudar na economia do Estado brasileiro. Queremos, sim, ajudar. E nós temos potencial para isso, mas do nosso jeito. Que os governantes sejam capazes de vir conversar com a gente, e não vir com modelo montado, de que tudo que a gente fala e quer não cabem no modelo do governo. Por isso, sempre vai existir esse embate, essa diferença entre nós, porque, infelizmente, o governo só gosta de ser ouvido e não gosta de escutar. E para os parlamentares, se a vida realmente tem valor, que eles reflitam o que aconteceu no Rio Grande do Sul. Depois que refletirem, se forem ainda capazes de sentir a dor do outro, aí sim eles podem vir falar com a gente, podem vir de fato construir um projeto que venha fazer umas vivências que o território possa conceder o bem-viver a todos que ali estão da melhor forma possível”, destacou o tuxaua.
A tentativa de reversão da Terra Indígena Raposa Serra do Sol não é uma novidade. Desde a homologação, há mais de 19 anos, o território e os povos vêm sofrendo com ataques, principalmente da bancada ruralista, bolsonaristas e seus grupos de interesses, que novamente atacam no Congresso Nacional.
Fonte: Conselho Indígena de Roraima (CIR)
