Com a descoberta de diamantes e a chegada dos primeiros garimpeiros em 1937, a Serra do Tepequém chegou a pertencer a uma empresa belga na década de 1950, que comprou a licença de garimpagem e passou a cobrar dos garimpeiros para que eles pudessem trabalhar, até que um assassinato mudou completamente a história do local, que hoje sobrevive do turismo como principal atividade praticada por moradores e familiares de antigos garimpeiros

Atualmente consolidado como o principal ponto turístico de Roraima, a Serra do Tepequém, localizada no Município do Amajari, a 210Km de Boa Vista, ao Norte do Estado, tem sua origem na chegada dos primeiros garimpeiros de diamantes em 20 de janeiro de 1937, a partir de quando se tornou o principal garimpo de diamantes da América Latina entre as décadas de 1940 e 1960.
Apesar desse passado de glória e declínio do garimpo, com a chegada do turismo nos anos de 2000, a história da exploração de diamante reflete até hoje na vida de quem mora na serra e até mesmo daqueles que chegaram recentemente para investir na atividade turística. Não há como falar de turismo sem narrar as aventuras e desventuras durante as diversas jornadas que embalaram os antigos garimpeiros.
As primeiras expedições em busca de diamante na região foram feitas na década de 1930, sob o comando do geólogo Mezach Breusntz, da Guiana Holandesa (hoje Suriname). Ele ficou conhecido como “Bruston”. Contratado por um fazendeiro local, denominado Antônio “Piauí”, Bruston veio com mais dois experientes garimpeiros da então Guiana Inglesa, Jhonson Jones e Isidério Ribas, para iniciar as pesquisas em busca do minério em Tepequém.
Depois da confirmação da existência de diamante por esses três pesquisadores, começaram a chegar os primeiros garimpeiros. Entre eles estava Benedito da Gama Guimarães, que chegou com outros desbravadores em 20 de janeiro de 1937. Sua história está eternizada ao ser homenageado ao ter a praça de Tepequém batizada com o nome dele.
Beneditão, como era conhecido, foi casado com a Dona Iraci Guimarações, a segunda esposa, que até hoje está viva para narrar a história. Sua família mora na região do Igarapé Preto, na zona rural de Tepequém.
Concessão da lavra e a venda de Tepequém aos belgas
Foi com a chegada desses pioneiros garimpeiros que se deu início à ocupação e exploração efetiva de diamantes na Serra do Tepequém. Depois disso, um grande proprietário de gado do Vale do Rio Branco, Adolfo Brasil, começou a requerer posse de várias áreas garimpos, nos fins da década de 1940. A garimpagem já estava no auge quando a licença de lavra da Serra de Tepequém foi concedida pelo governo, em 1950, para a Empresa de Mineração Tepequém Ltda.
Logo em seguida, Adolfo Brasil vendeu a licença para o seu sócio, Leontino Alves de Oliveira, um garimpeiro maranhense que tinha vindo de Tocantins, que por sua vez vendeu a concessão para uma empresa belga, em 1953, que adotou o mesmo nome da empresa brasileira. Aqui começa a segunda fase da história e da exploração de diamantes em Tepequém, que foi internacionalizado e com todos passando a receber ordens da empresa belga.
A partir de então, o proprietário do garimpo de Tepequém passou a ser o judeu Joseph Hellinges, que deixou como encarregado o seu filho Paul Hellinges, que começou a ser chamado pelos garimpeiros brasileiros como “Paulo” ou “Gringo”. Era ele quem comandava a exploração de diamantes, com os garimpeiros tendo que pagar pelo diamante que pegavam, caso quisessem trabalhar na serra, além de adotar um ousado projeto de prospecção, com uso de dinamites, conforme veremos depois.
Assassinato de Gringo acabou sendo chamado de ‘a libertação de Tepequém’

Devido a divergências por causa do garimpo, insufladas pela forte resistência de garimpeiros para se submeterem às determinações da empresa estrangeira, Paul Hellinges, o Gringo, acabou sendo assassinado a tiros por um garimpeiro. O crime ganhou repercussão internacional.
Depois da morte do Gringo, em 1956, a empresa encerrou suas atividades em 1957, quando o garimpo ficou “sem dono”, fato este chamado pelos garimpeiros de “a libertação de Tepequém”, funcionando desta forma até o fechamento definitivo em meados da década de 2000, quando o turismo começou a ser o principal atrativo.
Fases do garimpo de diamante
A exploração de diamantes experimentou algumas fases até chegar ao turismo. A primeira delas foi a chegada dos primeiros garimpeiros em 1937. A partir daí, começou a corrida pelo diamante, cujo apogeu da exploração manual foi entre as décadas de 1940 a 1950. Na década de 1960 viver do diamante começou a decair.
Depois desse auge e o início da decadência da exploração manual, em 1970 começaram a chegar os primeiros maquinários, dando início a uma nova fase da busca pelas pedras preciosas. A prospecção com máquinas seguiu até o fim da década de 1990, quando o garimpo com máquinas foi proibido definitivamente. Mas até hoje é permitido que antigos garimpeiros trabalham de forma artesanal.
No início da década de 2000, com a decadência completa do garimpo, foi dado início ao turismo como atividade econômica alternativa para garantir a sobrevivência de quem morava em Tepequém e dependia exclusivamente da exploração de diamantes.

*Fonte e fotos: PDF elaborado pela família dos belgas que compraram a concessão da lavra, quando eles vieram ao Brasil, em 2017, para lembrar a saga dos familiares em Tepequém
Dona Iraci Guimarães, uma das pioneiras da Serra do Tepequém

Apesar de o turismo ter se tornado a atividade principal na Serra do Tepequém, tudo por aqui ainda respira a garimpo, cujo auge da exploração de diamantes foi de 1940 a 1960. São poucos os remanescentes dessa época. Uma dessas pessoas é dona Iraci Colares Guimarães, 85 anos, esposa de pioneiro Benedito da Gama Guimarães, o Beneditão.
Um dos primeiros garimpeiros a chegar para explorar diamante, Beneditão ficou viúvo e casou com Dona Iraci. A ex-garimpeira não mora mais na Serra do Tepequém. Por causa de sua idade e os cuidados com sua saúde, ela está morando em Boa Vista, mas sempre que pode visita aA família no Igarapé Preto onde tem uma casa.
A história de vida de Dona Iraci começou quando ela foi passar férias em Tepequém em 1954, aos 15 anos de idade, e conheceu Benedito, que na época tinha 40 anos de idade e era viúvo. A matriarca do Igarapé Preto guarda não só histórias de vida e do garimpo, como também memórias do começo de Tepequém.
Ela lembra que chegou a presenciar a chegada em massa de garimpeiros em busca do sonho de encontrar a riqueza por meio das pedras preciosas. Da mesma forma que via a chegada de pessoas, também era testemunha do grande número de garimpeiros que perdiam suas vidas pela doença, brigas e acidentes na garimpagem.
A matriarca da família Guimarães relata que os corpos eram enterrados no local chamado Volta do Veloso, em uma curva do Igarapé Cabo Sobral, que foi o berço da exploração e da História de Tepequém. Não era um cemitério organizado, mas um local onde os corpos passaram a ser enterrados de qualquer jeito, muitas vezes em covas rasas, acima da Vila Cabo Sobral (que era chamada pelos garimpeiros de corrutela).
À medida que mais garimpeiros chegavam, as áreas de exploração de diamante foram avançando igarapé acima, até chegar à Volta do Veloso, onde foi o antigo cemitério. As pessoas precisavam passar por esse local no trajeto dos barracões, na corrutela, até os baixões, que eram os locais da garimpagem.
Ela relembra ter passado por cima de ossada de pessoas no caminho para o barracão. Embora fosse uma cena comum para quem vivia no garimpo, quando ela chegou em Tepequém, em 1954, achava a cena assustadora e até corria com medo, quando o horário se aproximava das 18h.
Ex-garimpeira, filha de pioneiro refloresta área degrada pelo garimpo

A ex-garimpeira Neuza Guimarães da Silva, 76 anos, conhecida por Nilza, é uma das filhas do pioneiro Benedito da Gama Guimarães, o Beneditão, com sua primeira esposa. A mãe dela, Albertina Guimarães Cruz, morreu aos 33 anos de congestão, quando Nilza ainda era criança, por isso ela foi criada pela segunda mulher de Beneditão, Dona Iraci Colares Guimarães.
A história de vida de Dona Nilza é muito semelhante à das demais mulheres que garimparam na região, com a diferença de que ela e mais quatro irmãos nasceram no próprio Município do Amajari, na região do Ereu. A família foi levada para Tepequém, por Beneditão, quando o garimpo de diamante iniciou em 1937.
Mas tudo mudou com a morte da mãe. Dona Nilza acabou sendo doada para uma família no Ereu e só retornou para Tepequém quando completou 8 anos de idade. Sua vida passou a ser o garimpo na área conhecida como Mina Velha, na Vila Cabo Sobral, onde pai trabalhava como os demais, garimpando diamante, na época em que a “dona” do garimpo era a Empresa de Mineração Tepequém Ltda, de propriedade da família belga.
Segundo ela, todos trabalhavam para o “Gringo”, como era chamado o responsável pela empresa belga, Poul Hellinger, também chamado de “Paulo”, filho do proprietário da empresa, Joseph Hellinger. O contrato informal que se tinha na época era esse: qualquer pessoa podia garimpar em Tepequém, desde que vendesse os diamantes para o Gringo. E foi a desavença por causa desse trato verbal que custou a vinda de Gringo.

Dona Nilza casou-se com o garimpeiro Antenor Pereira da Silva, a quem passou a acompanhar nas aventuras na busca de diamantes em outros garimpos no Município do Uiramutã, especialmente na região do Mutum, onde também pegaram muito diamante.
Inclusive, uma das fotos do casal, exibindo uma peneira cheia de diamantes, foi tirada em Mutum, mas a imagem acabou sendo publicada como se fosse em Tepequém, em um trabalho de pesquisa universitária, não se sabe se propositalmente, por fata de fotos da época para ilustrar a dissertação, ou equivocadamente.
Por isso a imagem se popularizou como sendo do auge do garimpo em Tepequém. Mas Dona Nilza afirma categoricamente que a imagem é de Uiramutã, região garimpeira que fazia parte do roteiro de muitos garimpeiros que trabalham no Tepequém. Era comum os garimpeiros ficarem transitando de uma região para outra, quando o garimpo “cegava” (ou, seja, ficava muito tempo sem a pessoa pegar minério).
Atualmente, Dona Nilza mora ao lado de outros irmãos na Vicinal Igarapé Preto e também da mãe de criação, Dona Iraci. Ela voltou para a Serra do Tepequém há cerca de 15 anos, que é o mesmo tempo que o pai, Beneditão, faleceu aos 93 anos.
Primeiro ela construiu um casebre coberta de palha, ao estilo garimpeiro, onde passou a morar sozinha, na companhia apenas de um cachorro, na escuridão da noite, por falta de energia, e isolada devido à falta de estrada. Hoje ela tem um casarão, onde reúne a família que mora em Boa Vista em feriados prolongados e fins de semana.
Sua terapia de vida pós-garimpo, quando também passou por sérios problemas de saúde, é fazer artesanatos para seu próprio uso, cuidar de um amplo jardim e reflorestar as áreas degradas pelo garimpo, no lote onde ela mora, usando plantas nativas, especialmente a palmeira buriti, que é abundante na região.
Aos fundos de seu quintal ainda resistem as marcas do garimpo de diamante, como uma cratera deixada pela prospecção, chamada pelos locais de poção. Hoje está tudo reflorestado por Dona Nilza aos fundos de seu quintal. São pelo menos 40 desses tipos de buracos por toda a serra, que se tornaram lagoas perenes pelo fato de a escavação ter atingido o lençol freático. Alguns desses poções hoje servem ao turismo.
P.S.: Matéria atualizada em 25.05.25, às 21h38, quando foi alterada a manchete

