
Enquanto os municípios do Norte de Roraima registram uma trégua em relação a focos de queimadas devido às chuvas atípicas que estão caindo na região, outras localidades ainda registram incêndios, a exemplo da zona rural de Boa Vista, com impactos não só no meio ambiente, mas também na qualidade de vida das populações. Engana-se quem pensa que a questão do fogo se resume a problemas localizados onde os focos são registrados.
É isso o que mostra uma análise feita pelo Grupo de Pesquisa Savanas e Florestas de Roraima (SavFloRR) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Núcleo Roraima (NUPRR – INPA), que serviu para apontar os fortes e amplos impactos provocados pelo fogo. O estudo foi feito a partir de um grande incêndio florestal a Sudeste do Estado identificado entre 27 de fevereiro e 5 de março desse ano.
O incêndio foi identificado a partir do monitoramento de focos de calor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), cuja análise foi realizada combinando os dados de satélite para investigar não apenas a ocorrência do fogo, mas também seus impactos atmosféricos que atingiram quase toda a região Sul de Roraima.
Além das anomalias térmicas detectadas pelos satélites, foram utilizados dados do sensor TROPOMI a bordo do satélite Sentinel-5P, da Agência Espacial Europeia. A análise indicou concentrações anormais de monóxido de carbono (CO) na atmosfera, com emissões elevadas durante todo o período do incêndio. Os dados indicaram uma forte ação poluidora a partir da emissão da fumaça lançada do local do incêndio.
Os pesquisadores identificaram um surpreendente fato: a espessa nuvem de fumaça gerada pelo fogo foi transportada pelos ventos e atingiu a sede do Município de Rorainópolis, estendendo-se por até 300 km a partir da área de queima. Isso mesmo: o impacto de um incêndio florestal ou queimada descontrolada nos lavrados roraimenses vai muito além do que imaginamos.
Além de o fogo provocar estragos ambientais no local do incêndio criminoso ou da queimada descontrolada, tem ainda o impacto provocado pela fumaça em extensas regiões, a partir da poluição do ar provocada em diversas regiões, com sérios reflexos na qualidade de vida dessas populações. O problema ocorre na Capital também, quando é atingida pela fumaça de queimadas registradas nos países vizinhos e de outros municípios.
Conforme os pesquisadores do Inpa em Roraima, esse tipo de monitoramento apresentado por eles mostra a importância do uso integrado de dados de satélite para acompanhar não apenas a ocorrência de fogo, mas também seus efeitos sobre a qualidade do ar e os impactos socioambientais nas populações da região.
Enquanto isso, as autoridades em todos os níveis de governo tratam a situação do fogo de forma estanque e sem um plano definido não só para identificar e punir autores de incêndios criminosos, mas também para amenizar os impactos às populações atingidas pelo fogo e pela fumaça. Sem estrutura e na ausência de uma política de governo, a solução vem do céu, com as chuvas sendo a única salvação quando os focos de queimadas surgem a cada período forte de estiagem.
*Por Jessé Souza
