Belgas compraram Tepequém para fornecer diamantes para a Europa na década de 1950

Não há como contar a história do principal ponto turístico de Roraima sem narrar o episódio de quando a Serra de Tepequém pertenceu a uma empresa belga, de 1953 a 1957, que privatizou o garimpo de diamantes e queria transformar os garimpeiros em funcionários, mas fracassou depois de um assassinato

Esses eram os pais da família Hellings, que tinham seis filhos, na Vila Cabo Sobral

Consolidada hoje como o principal ponto turístico de Roraima, a Serra do Tepequém teve um passado que chegou a se conectar com um pedaço da Europa, Antuérpia, uma cidade portuária da Bélgica com uma história que remete à Idade Média, ocupada por milhares de comerciantes, lapidadores e polidores de diamantes.

Foi a descoberta de diamantes em Tepequém, no fim de 1937 e início de 1940, perto da fronteira com a Venezuela, que tornou a serra roraimense no maior garimpo de diamantes a céu aberto da América do Sul, fato este que acabou atraindo uma família de belgas que morava em Antuérpia, um dos centros do comércio internacional de diamantes europeu daquela época.  

Foi em 1953, quando o empresário belga Paul Hellings chegou ao Rio de Janeiro em busca de novos fornecedores, que ele soube rumores de que uma mina de diamantes estava à venda no Norte do Brasil, mais precisamente em Tepequém, quando nem existia o Município de Amajari.

Paul era sócio de seu pai, Joseph Hellings, nos negócios da família. Ele então decidiu conhecer a Serra do Tepequém com o sonho de torná-la uma grande fornecedora de diamantes para o mercado europeu.

Empresa belga passou a ser dona de Tepequém em 1953

Pai e filho belgas ao chegarem a Tepequém em voo fretado

Após pegar um avião para Manaus (AM), Paul Hellings chegou a Tepequém no final de 1953,  quando ele e seu pai compraram a concessão da lavra de exploração de diamantes e se tornaram os proprietários da Empresa de Mineração Tepequém Ltda, optando por manter o mesmo nome da empresa.

Documentos comprovam posse da Empresa de Mineração Tepequém Ltda

A família Hellings, de origem judaica, estava ativa no negócio de diamantes há gerações em Antuérpia. Joseph Hellings era casado com Clementine, os quais tinham seis filhos: Robert, Paul, José, Magda, Rita e Luc. No entanto, apenas pai e filho decidiram morar em Tepequém para a administrar o novo negócio.

Poção do garimpo serviu de “piscina” para Paul e Joseph

No quintal da nova casa, na Vila Cabo Sobral, onde funcionava o garimpo e que chegou a ter cerca de 5 mil moradores no auge do diamante, Paul e Joseph tinham uma “piscina rústica” para tomar banho. Os buracos deixados pelo garimpo eram chamados de poções e hoje são conhecidos como lagoas.

Tilim do Gringo foi um projeto que tentava tornar garimpo lucrativo

Tilim do Gringo foi aberto com dinamites e trabalho braçal de garimpeiros

Entre as expectativas de um grande negócio e a realidade encontrada na Serra do Tepequém, os belgas Paul e Joseph Hellings descobriram que a exploração da mina era mais difícil e mais cara do que o esperado. Foi quando pai e filho se convenceram de que executar o “Projeto Funil” poderia tornar a empresa lucrativa.

O projeto iniciado em 1954 consistia em desviar o curso da água do Igarapé Cabo Sobral abrindo canais para facilitar a exploração de diamantes. A proposta incluía abrir uma imensa fenda de 30 metros de comprimento por 10m de altura entre as rochas para canalizar a água e desviar o curso do igarapé. Esse local da grande fenda ficou conhecido como “Tilim do Gringo”.

Foram dois anos de construção até a desistência de seguir com o trabalho

“Tilim” é o termo usado no garimpo amazônico para designar o canal por onde escorre a água com o rejeito do minério. A palavra vem do vocábulo de mineração inglês “tailing” (rejeito). E o termo “gringo” vem do apelido do belga Paul, que também era chamado de “Paulo” pelos garimpeiros. E assim ficou batizado o Tilim do Gringo, que se tornou um local de visitação turística de Tepequém nos dias atuais.

O projeto também previa a escavação de outras valas menores (funis) ao longo do Igarapé Cabo Sobral, a fim de desviar o curso da água, inclusive nas quedas de duas cachoeiras, cuja principal delas recebeu o nome que é conhecido até os dias de hoje pelos turistas, a Cachoeira do Funil, a qual faz parte do mesmo roteiro turístico do Tilim do Gringo.

O  Tilim do Gringo e as valetas (tilins) foram abertos na base de dinamite e com muito trabalho braçal dos garimpeiros contratados pela empresa belga. Como o projeto foi bem executado, a grande fenda aberta entre as rochas é considerada até hoje como um exímio trabalho de engenharia conduzido por Paul e executado pelo trabalho braçal dos garimpeiros.

Revolta dos garimpeiros e o assassinato do ‘Gringo’

Jornal belga e um jornal roraimense noticiam morte de Paul, o Gringo

Para que o projeto de tornar a empresa belga lucrativa desse certo, Paul e Joseph queriam que todos os trabalhadores de Tepequém se tornassem funcionários regulares da empresa, mas os garimpeiros não tinham tradição de trabalho remunerado, já que sempre trabalharam de forma autônoma.

Então, foi aí que tudo começou a desandar. Havia muita resistência entre os garimpeiros para que se tornassem funcionários da empresa. Também muitos se negavam a ser obrigados a vender toda produção de diamante para a empresa belga, que decidia o valor, em troca da autorização para garimpar.

A resistência era tanta que a revolta chegou às páginas do principal jornal local, em Boa Vista, chamado “O Átomo”, acusado pela família belga de promover oposição contra os novos proprietários da Empresa de Mineração Tepequém Ltda.

Em documento elaborado pelos herdeiros da família, em 2017, quando vieram a Tepequém para visitação, afirma que, como resultado da crescente hostilidade pregada contra os proprietários da empresa, Paul Hellings, o Gringo, foi assassinado no dia 9 de maio de 1955, que morreu nos braços de seu pai após ser baleado na cozinha de sua casa.

Sepultamento e chegada da família belga

Solenidade religiosa do sepultamento de Paul na Vila Cabo Sobral

Paul Hellings foi sepultado no cemitério de Tepequém, na Vila Cabo Sobral, que se mantém até os dias atuais. Em honra aos planos do filho falecido, Joseph Hellings se comprometeu a levar adiante o Projeto Funil.

Para que não ficasse só, mandou buscar sua esposa, Clementine, que chegou da Bélgica em 1955. Mais tarde, em 1956, chegaram os filhos Robert, Luc, Rita e Magda, quando passaram a viver na Vila Cabo Sobral junto com os garimpeiros, onde a maioria das casas era feita de taipa ou pau a pique (barro com varas de madeira) e cobertas de palha de buriti ou inajá.

Após assassinato, família belga passou a morar em Tepequém em 1956 e 1957

Belgas deixaram Tepequém em abril de 1957

Com ajuda da família a partir de 1955, Joseph tentou prosseguir com o Projeto Funil, mas depois de um ano de investimento, as obras já custavam uma fortuna e os resultados considerados decepcionantes, o que significou o fim do sonho e da empresa. Em abril de 1957, a família retornou para a Bélgica.

Para os garimpeiros que sempre se opuseram ao fato de o garimpo ter um dono, o fim da empresa belga significou “a libertação de Tepequém”, quando todos ficaram livres para garimpar sem dar satisfação a ninguém.

Exploração do garimpo de diamante sob o comando da empresa belga

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*Fonte e fotos históricas: PDF elaborado pelos familiares dos belgas que compraram a concessão da lavra de exploração de diamantes, quando eles vieram ao Brasil, em 2017, para lembrar a saga dos familiares em Tepequém 63 anos depois.

Um comentário

  1. Essa fantástica história da exploração do garimpo em Tepequém é o roteiro para um bom vídeo documentário.

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